A Gearbox conseguiu atingir um ponto na indústria que muito poucas equipas chegarão sequer a ver, este ponto consiste em ter um loop de jogabilidade tão cativante e surreal que independentemente da história, todas as sessões em jogos deles acabam por ser puro divertimento.

Foi, em grande parte, graças ao lançamento do primeiro Borderlands que vimos a popularização de um novo sub-género: o looter shooter. Embora a Bandai Namco já tivesse testado as águas com Hellgate: London em 2007, este não alcançou a popularidade esperada e acabou por ter os servidores encerrados apenas 2 anos depois. Borderlands então subiu ao palco e deu uma prestação com humor, caos, (muito) loot e a possibilidade de passarmos a história toda em cooperação com amigos, e como podem reparar pela análise de hoje, o resto é história.

Tiny Tina’s Wonderlands deriva da saga Borderlands, mais concretamente do excelente Borderlands 2, tendo começado como uma expansão (recentemente oferecida no Playstation Plus e na Epic Store) chamada Assault on Dragon Keep. Esta expansão foi bastante bem recebida pelos fãs, não só pela irreverência de Tina e Bunkers & Badasses, mas também pela diversão e quantidade de conteúdo que apresentou.

9 anos depois chega-nos então esta aventura protagonizada por uma personagem criada por nós, mas narrada pelo que é sem dúvida uma das (se não a) personagens mais carismáticas do ano: Tiny Tina!

Após uma breve introdução hilariante à história, somos levados para um ecrã onde podemos criar o(a) nosso(a) Fatemaker. Esta personalização inclui cosmética, classe e passado da personagem, sendo que esta última serve mais para ajudar a dar vida à mesma, visto que os atributos, embora divirjam por cada passado, são facilmente manipuláveis, dada a abundância com que recebemos pontos por subir de nível. Temos direito a voz, com algumas piadas proferidas pela personagem, mas infelizmente são poucas, o que significa que ao fim do 2º nível já ouviram todas as one-liners que há para ouvir.

Depois de termos a personagem criada começamos então a história. Esta mantém a linearidade, concentrando-se mais nas punchlines do que na complexidade. Todavia, isto leva a que encontremos alguns fios narrativos sub-desenvolvidos e acabem por nem todos chegar ao respectivo fim.

Os níveis são sequenciados através de um tabuleiro chamado “Overworld” de Bunkers & Badasses. Tina serve como Bunker Master e vai-nos guiando e preenchendo algumas lacunas enquanto passeamos. O destaque é claramente Tina e as suas ideias tresloucadas como numa questão de segundos um castelo perfeitamente normal passar a um estado praticamente apocalíptico.

Estas sequências são sempre acompanhadas de um humor irreverente, que ajuda imenso a criar uma sessão de jogo divertida, ainda mais se estiverem com amigos. No entanto, este humor, embora excelente, prolonga a sua estadia. Com isto quero dizer que não nos é dado qualquer espaço para respirarmos entre níveis, parecendo tudo uma grande piada, acabando por desvalorizar quaisquer momentos que pudessem ter um pingo de seriedade.

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O mundo e as personagens são repletos de fan service, incentivando o jogador a explorar os diversos locais, onde cada canto terá uma surpresa completamente aleatória e quase de certeza irá sacar uma gargalhada, como por exemplo, uma senhora que perdeu “os berlindes”. Não restam dúvidas de que a equipa tem jogadores de D&D dado que logo no início somos convidados a seduzir uma ponte, quem sabe, sabe.

Embora não tenha a longevidade do tradicional Borderlands, Wonderlands traz uma viagem satisfatória, no sentido em que não prolonga a sua estadia. Isto deve-se em certa parte à quantidade de missões secundárias que temos à nossa disposição, com as tradicionais fetch quests ou através da liberação de locais ocupados.

Embora as missões não sejam imensamente repetitivas, os locais onde acabamos por ir são. Com isto quero dizer que se apenas fizerem a história e algumas missões secundárias, verão o mesmo local muito poucas vezes, no entanto, caso sejam completionists, preparem-se para arrendar um quarto em alguns dos mini-locais onde entram em conflito com inimigos.

Depois de terminarem a história, terão acesso à Chaos Chamber. Esta consiste num portal que nos transporta aleatoriamente para uma dungeon, onde podemos enfrentar bosses que testem as nossas capacidades, mas ao mesmo tempo nos recompensem com um saque merecedor das balas que gastámos.

Falando em balas, como é costume nos jogos Gearbox, temos centenas de armas à nossa disposição, sendo que em Wonderlands temos uma maior facilidade em jogar apenas com armas melee, o que acrescenta mais uma alternativa às já imensas existentes. Embora existam alternativas na maneira como abordamos o combate em termos de armas, creio que existiu aqui uma oportunidade perdida de seguir o rumo que o próprio mundo seguiu, full fantasy mode. Falo nas classes, que mais servem como sub-classes, visto que teremos sempre de usar armas, senão o combate passaria a ter um tempo bastante mais reduzido e claramente que o objetivo do jogo passa por ação frenética.

Os efeitos da magia são bastante cativantes e tive pena de não poder ser um mago/necromante como as próprias classes os apelidam. Estas aplicam-se apenas ao poder especial que tem um cooldown, o que nos obriga a esconder atrás de cobertura enquanto disparamos ou aguardamos que o feitiço recarregue. Não escrevo isto em desprimor das armas, pois estas são visualmente incríveis, cada uma com mais detalhes do que a anterior, mas ao fim de 3/4 horas a jogar começamos a entrar num modo burnout de tanto disparar.

Não obstante, o combate mantém-se empolgante e também este tem a sua dose de humor, seja com os inimigos que enfrentamos ou as falas que estes proferem enquanto percorrem o campo de batalha.

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Através do combate teremos as nossas devidas recompensas, todavia, e ainda às costas de Borderlands, o loot é tanto que chega a ser assoberbante. Podia não ser, se existisse um sistema de organização refinado que nos permitisse por exemplo pegar numa arma instantaneamente como lixo ou tivéssemos uma espécie de bottomless box onde estas fossem parar se tivéssemos o inventário cheio. Sim, temos hipótese de recuperar algumas na cidade, mas não são nem um terço do total de loot que encontramos num nível.

Como já referi, Wonderlands eleva o nível de fantasia ao máximo, e isto claro, envolve enormes castelos e construções medievais. Ao entrarmos nos diferentes locais nunca sabemos bem o que enfrentar dado o temperamento de Tina, mas a verdade é que será sempre um deleite para a vista.

Embora as construções sejam incríveis visualmente, muito raramente temos hipótese de as explorar, estando estas caracterizadas pelos infames vortex pretos de onde os inimigos saem. É certo que tem de existir um local de onde os inimigos venham, no entanto custa olhar para um castelo com cerca de 30m de altura e não poder entrar em praticamente nenhum lugar, algo que com a criatividade da Gearbox seria certamente incrível.

Visto que Wonderlands saiu também nas novas gerações, para além de um FOV slider (Gearbox ao poder), temos ainda direito a optar por 2 modos visuais:

Resolução – 4K dinâmicos (com um mínimo de 3200 x 1800) e 60 fps;

Desempenho – 1920 x 1080 e aumenta o lock dos fps para 120fps;

Embora exista uma diferença significativa na resolução, os visuais mantêm um padrão de qualidade que deixam ambos os modos com um desempenho visualmente satisfatório.

Com uma palette de cores vibrantes em cel-shading, nunca vimos tanto detalhe num jogo da Gearbox nas consolas, com direito a imensos inimigos no ecrã ao mesmo tempo. Wonderlands é um jogo com um portefólio de vistas incríveis, convidando todo e qualquer fã de fantasia a ingressar nesta aventura.

A acompanhar este espectáculo visual temos não só uma banda sonora frenética, como prestações surreais. Ashly Burch não salta um único tempo e traz-nos uma das melhores prestações deste ano, ainda mais incrível se torna quando comparam Aloy com Tina, tendo estas a voz da mesma pessoa. Igualmente incríveis são Andy Samberg como Captain Valentine, Wanda Sykes como Frette e Will Arnett que encarna o nosso antagonista: Dragon Lord.

Tiny Tina’s Wonderlands já está disponível para PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series X|S, e para PC na Steam e Epic Games Store.

CONCLUSÃO
Loucura!
8.2
tiny-tinas-wonderlands-analiseTiny Tina’s Wonderlands apresenta-se como uma digna aventura própria, que embora traga algum peso de Borderlands, colmata estes chatos hábitos com um conjunto de mudanças que não apelam aos fãs da saga, como criam uma fundação para uma experiência completamente diferente do que estamos habituados. Será difícil passar uma tarde a jogar Wonderlands e não esboçar um único sorriso.