O estatuto de samurai foi abolido na primeira década de 1870 e, até aos dias de hoje, permanece um grande interesse e sede por conhecimento do ocidente em geral, sobre a sua cultura, habilidades, os seus mitos em combate, e sobretudo a maneira de viver e morrer com honra, algo sempre muito poético, e de certa forma exagerada, segundo nos indica a história concisa sobre estes infames guerreiros.

Por longos anos e em qualquer forma de arte, os samurais continuam bem presentes nas nossas mentes, muito graças ao lendário cineasta Japonês que abriu as portas do cinema nipónico para o ocidente, com um enorme legado que dura, e durará: Akira Kurosawa.

Desenvolvido por Leonard Menchiari em parceria com a Flying Wild Hog e distribuido pela Devolver Digital, Trek to Yomi é, sem rodeios, um belo resultado dessas inspirações.

Uma narrativa clássica cheia de vingança

Não há obras de samurais sem traição e vingança, e Trek to Yomi não é diferente! Na pele de Hiroki, somos desde cedo apresentados a uma educação rígida como aprendiz de guerreiro disciplinado pelo bushido, um código de guerreiro que desde cedo nos mostra o quão necessário é, já que não há honra nem piedade na guerra, e a crueldade chega quando menos esperamos.

Após uma sessão prática de espadas com o seu mestre, Hiroki vivencia uma atrocidade cruel à sua vila, quando sem contar, rompe um exército invasor que ataca e mata sem dó nem piedade; arrasando completamente a vila e os seus habitantes. Hiroki consegue sobreviver, e será depois desse pequeno prólogo — usado como um bom tutorial —, que a sua jornada de vingança começa.

Um dos conceitos mais interessantes desta narrativa, é a exploração do Yomi, o mundo dos mortos na mitologia Japonesa e no Xintoísmo. Sem querer entrar no campo de spoilers, Hiroki de alguma forma, vivencia a experiência de estar do ‘lado de lá’, uma peça da narrativa importante que o fará questionar a ele e a ti, quanto às escolhas a tomar, dos três finais diferentes.

Joguei na dificuldade Ronin, que corresponde ao modo difícil nos jogos mais padronizados para a linguagem ocidental, e acabei a jornada em quase cinco horas de gameplay, tempo esse que pode ser facilmente encurtado nas dificuldades mais fáceis, já que os inimigos morrem apenas com um golpe. É um jogo curto, mas por incrível que possa parecer, acho que explora em excesso o mundo dos mortos (Yomi), para ganhar mais tempo de longevidade, o que o acaba por tornar um pouco mais desgastante e com quebra de ritmo.

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Reflexos e uso da boa e clássica Katana

Trek to Yomi é na maior parte do tempo, um side-scroller. O segredo está na dominação da melhor amiga dos samurais, a katana. O jogo inicia-se com uma pequena introdução de alguns combos básicos, como ataques fracos e fortes, e mais tarde, à medida que irás progredindo, irás desbloquear novos golpes que irão diversificar um pouco mais daquilo que facilmente pode cair no aborrecimento.

O jogo tem um sistema de vigor que se irá desgastando à medida que recebas golpes, mas que pode ser facilmente contornado quando aparado (parry) no tempo certo. Uma das falhas graves mesmo em dificuldades mais elevadas, é a falta de desafio que te obrigue a utilizar golpes diferentes de acordo com cada inimigo. Tentei não o fazer para não perder o gosto pelo jogo, mas querendo, facilmente passava o jogo com uma combinação de dois botões, seguido de finalização, que também pode ser utilizada depois de atordoares os teus inimigos.

Tirando os bosses, os inimigos causam continuamente um desgaste tremendo, com golpes sempre muito idênticos de apenas duas combinações. Relativamente a meio da jornada de Hiroki, começam a surgir inimigos com flechas e armas de fogo, algo que ajuda um pouco a limpar o excesso de repetição e a quebra de ritmo, mas assim que voltes a conhecer os padrões uma vez mais torna-se extremamente tedioso. O pico do seu desafio encontra-se no final de cada capítulo, que nos obriga de facto a decorar os movimentos do inimigo, bem ao estilo de um Souls. Do meio para a fase final do jogo, os desenvolvedores tentam diversificar um pouco mais, trazendo alguns quebra-cabeças, ainda que sem desafio algum.

Fora do combate, é quando o jogo por vezes abre do side-scrolling, e se expande para um 2.5D com pitadas de 3D à mistura. Será nessa altura, assim que o nosso samurai volta a depositar a sua katana no suporte, que poderás explorar caminhos adicionais, muitas vezes escondidos, com segredos como golpes únicos, munições para as tuas armas de longo alcance, e melhoramentos no vigor e nos pontos de vida. Aproveito para te aconselhar a procurar em especial os coleccionaveis, que trazem não só muita informação sobre a cultura samurai, mas no geral pela cultura Japonesa feudal.

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Experiência audiovisual e direção de arte deslumbrante

Trek to Yomi é daqueles títulos que pouco precisou de mostrar, para cativar o grande público, tudo isso graças à sua prodigiosa apresentação, com uma ambientação e direção de arte de “fazer cair o queixo”. Desde a sua primeira aparição no evento da Playstation, fiquei imediatamente apaixonado por tudo o que envolvia este título da Devolver Digital, também conhecida por nos distribuir alguns dos melhores e mais singulares indies do mercado.

Uma vez mais, será inevitável não mencionar Akira Kurosawa quando se referencia todo o trabalho artístico desta obra. Totalmente a preto e branco monocromático e com uma dobragem Japonesa muito cuidada, a experiência cinematográfica é constante. O efeito de iluminação conjuga muito bem com todas as brincadeiras de direção usadas nos variados ângulos visuais, que irão mudando de acordo com a exposição dos cenários.

A banda sonora é extremamente metódica, e cada faixa vai crescendo sentimentalmente com o tom do jogo. Esta carga de energia passada na música é algo que sempre me fascinou, e que cada vez sinto ver menos. Neste quesito, Trek to Yomi é pensado ao pormenor, e se jogares especialmente de headphones, a imersão será ainda mais intensa. Nostalgia, saudade, solidão e reflexão são elementos quase palpáveis nesta mistura de instrumentos. Um dos mais recentes exemplos que me fez imergir assim tanto em todo o seu esplendor sonoro, foi The Last of Us Part II.

A banda sonora de Trek to Yomi pode ser comprada aqui.

Trek to Yomi já está disponível para PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series X|S e PC na Steam. Esta versão foi jogada através do serviço Xbox Game Pass, na consola Xbox Series S.

CONCLUSÃO
Deslumbrante!
8
Igor Gonçalves
Curioso, explorador, e fã de videojogos desde que me lembro, e em especial pela saga Metal Gear. Não jogo plataformas, jogo jogos.
trek-to-yomi-analiseTrek To Yomi é a homenagem mais perfeita em 2.5D que irás encontrar da mitologia e da cultura Japonesa, mas sobretudo com foco especial pelas realizações cinematográficas de Akira Kurosawa, cumprindo maravilhosamente bem, e roubando total destaque da jogabilidade simples e bastante repetitiva que nos acompanha durante cerca de cinco horas de jogo.