Com o encerramento do Google Stadia, muitos dos jogos que lá saíram como exclusivos vêem-se com duas opções: ou aceitam a queda do serviço e deixam que a chama dos seus títulos se extinga, ou decidem apresentá-los a milhões de novos jogadores, lançando-os em todas as plataformas disponíveis. Eu sou favor da segunda opção, e felizmente, a Thunderful Games também.

Vamos então falar de Wavetale.

História

Assumimos o papel da encantadora Sigrid, cuja mãe faleceu recentemente, levando a que tivéssemos sido criados pela nossa avó rezingona (mas que gosta muito de nós). Foi através da nossa avó que fomos conhecendo as lendas de Strandville, incitando a personalidade exploradora de Sigrid.

Um nevoeiro misterioso decide engolir os restantes locais e cabe-nos a nós embarcar numa aventura para evitar o pior. Eis que uma figura sombria surge debaixo de água, assemelhando-se ao nosso reflexo, e permite-nos surfar e deslizar sobre a água, servindo como método de travessia ao longo da viagem. Equipados ainda com uma rede com capacidades tecnológicas, iremos combater as várias criaturas que emergiram com o nevoeiro.

A história de Wavetale simplifica, quiçá até demasiado. Não que a narrativa principal tenha plotholes, mas esta tenta-se manter tão simples que todas as personagens que conhecemos não possuem qualquer profundidade emocional e aparecem e desaparecem tão rápido que só as recordamos através do diário de Sigrid.

Mundo

O ponto forte de Wavetale é sem dúvida o seu mundo.

Claramente com um foco na arte, ao invés do fotorrealismo, puxa galões das capacidades de animação e maravilha-nos a cada mergulho, salto ou interação com Strandville. Navegar as águas é super satisfatório, visto que a Thunderful teve a delicadeza de nos colocar rampas e/ou nascentes por todos os cantos. As peças engrenam todas para que a jogabilidade seja fluida e intuitiva.

Embora o mundo seja belíssimo, gostaria de ter visto mais diversidade na tipologia de biomas. Dado que boa parte do jogo consiste em viajarmos pelo alto mar a ajudar as várias cidades, senti que estava a visitar o mesmo local vezes sem conta, e a história apenas me demorou 5 horas a concluir, portanto mesmo não sentindo arrasto na longevidade, a repetitividade dos locais denegriu parcialmente a experiência.

À medida que viajamos encontramos ainda missões secundárias para concluir, tratando-se estas todas de fetch quests, deixando um sabor amargo. Algo que ajuda é que por norma os itens estão relativamente perto de onde começamos as missões, portanto não se sentem “fetch” longínquas, é mais “salta para ali porque não consigo”.

Jogabilidade

O núcleo da jogabilidade consiste no platforming. O combate encontra-se no jogo apenas para variar as interações, mas a sua simplicidade mostra-nos qual o foco da Thunderful ao criar Wavetale. Usamos apenas um botão para correr, mas podemos saltar duas vezes, desviar-nos a meio do ar, o que por si só são interações básicas, mas conseguimos conjugá-las todas de forma a conseguir resultados vistosos sem muito trabalho.

Ora, dado que passamos boa parte do jogo a saltar de plataforma em plataforma, incluindo nos bosses, o foco foi acertado. Nunca me senti aborrecido, mesmo quando tinha de viajar longas distâncias, com apenas o oceano pela frente.

O combate, como referi, é praticamente secundário. Temos duas combinações de ataque, sendo que por norma, dois golpes servem para deixar qualquer inimigo (terrestre) k.o.

Podemos ainda utilizar o nosso gancho para chegarmos a inimigos mais altos, facilitando o combate em alto mar, mas na verdade, os inimigos eram tão poucos e tão deslocados, que não percebo porque é que lá os colocaram. Serviram mais como desperdício de tempo do que sensação de vitória.

Audiovisual

Wavetale apresenta-se como já referi, belíssimo. Desvalorizando o fotorrealismo e focando-se na vertente artística, a Thunderful alcança um deleite para os olhos. Gostava de ter visto igual esforço no desenho dos locais que temos de trepar, mas são de curta duração, portanto é uma lomba mal sentida na viagem.

Encontramos ainda atuações com voz, o que ajuda a acrescentar vida ao mundo. Para além de Sigrid e a avó, várias personagens falam e adicionam o seu pedaço de vida a Strandville, muitas vezes com sotaques hilariantes. Pelo meio ainda temos direito a uma atuação musical de Sigrid que, embora curta, nos permite mergulhar momentaneamente numa bela melodia.

Breviário

Felicito a Thunderful pelo lançamento bem sucedido de Wavetale. Depois de um lançamento fora do radar no Google Stadia, Sigrid e companhia apresentam-se ao mundo, com uma viagem curta, mas memorável.

Agradecemos a chave cedida para análise pela editora.

CONCLUSÃO
Encantador
7.8
wavetale-analiseMais um indie repleto de amor, com uma viagem emocional e um loop de jogabilidade viciante.