Era certo e sabido que seria uma questão de tempo até que os criadores chineses tivessem uma expressividade maior no mercado ocidental de videojogos. Começaram através de imitações, inspirados em géneros consolidados do mercado e em direcção artística principalmente japonesa, e pouco a pouco foram dando maior valor à sua história, aos seus contos, as feições e estilos que marcaram nomeadamente a produção cinematográfica. A actividade não é nova, nos anos noventa, os criadores chineses tiveram alguns títulos com alguma relativa qualidade, entre eles a série Xuan-Yuan Sword – para muitos chineses, o Final Fantasy daquele país, que agora tenta uma pequena fissura para penetrar no mercado ocidental.

Hoje, é seguro afirmar que a China terá, em pouco tempo, alguns dos maiores estúdios, criadores e séries live service da indústria. Porém, é natural que vá sentido algumas “dores de crescimento” aqui e ali, e no meio de tantos produtos com imenso potencial, ainda se vá destacando alguns jogos. Infelizmente, Xuan-Yuan Sword: Mists Beyond the Mountains não é um desses casos, apesar de ter muitos elementos interessantes.

Análise de um grupo de pessoas em um jogo chamado Xuan-Yuan Sword: Mists Beyond the Mountains, apresentado através de uma captura de tela.

Xuan-Yuan Sword: Mists Beyond the Mountains apresenta-se logo sem deixar muitas dúvidas quanto ao que pretende: um RPG por turnos, com fortes inspirações nos clássicos da geração 16 bits, com sprites pintados à mão. À primeira vista, poderá dar a sensação de ser uma espécie de Suikoden, caso todo o estilo saltasse até aos miraculosos 32 bits, mas tal nunca chega a acontecer. Toda a direcção artística remete o jogador para o estilo oriental, e isso num período em que o género RPG tende a cair quase sempre nos mesmos estilos e temas, acaba por ser uma lufada de ar fresco, sobretudo quando todos os elementos de personalização e consumíveis como equipamento, itens, habilidades e opções se enquadram dentro da própria proposta.

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A narrativa mostra-se ambiciosa, quando tenta a colisão entre o ocidente e o oriente, atravessando França, China, Arábia e Eurásia, com um único cavaleiro a servir de ponto de ligação entre as diferenças das várias culturas. Contudo, a forma como o jogo se desenrola, a forma como a narrativa é alicerçada com o género, claramente a depender de mais recursos de produção, cai muitas vezes em sequências artificiais para dar mais corpo, para prolongar a jornada. Pela frente, Xuan-Yuan Sword: Mists Beyond the Mountains vai permitindo juntar ao grupo novas personagens, mas quase todas elas são um pouco desinspiradas e algumas com um papel muito questionável de se deveriam estar ali ou não. A determinada altura, a história perde-se, é confusa, e talvez um pouco extensa demais.

Uma captura de tela do jogo "Xuan-Yuan Sword" apresentando vários personagens do fascinante mundo de Mists Beyond the Mountains.

Como RPG por turnos, Xuan-Yuan Sword: Mists Beyond the Mountains usa e abusa dos combates aleatórios durante a exploração dos cenários, quebrando variadíssimas vezes a imersão da exploração dos cenários. Dentro dos combates, o jogador tem à sua disposição uma espécie de batalhas baseadas no clássico estilo ATBActive Time Battle system, e a hipótese de capturar inimigos que possibilitam criar novos itens e auxílio como habilidades passivas. Ainda que de forma ocasional, surgem diálogos engraçados com os inimigos, que caso o jogador consinta, pode tirar alguns benefícios dessas trocas, inclusive informações e dicas úteis. Nos combates, a estratégia que é pedida ao jogador é praticamente nula durante 99 por cento das batalhas, à expecção dos encontros contra os chefes. Durante esses encontros, a dificuldade aumenta consideravelmente, colocando à prova os dotes do jogador, mas ainda assim, Xuan-Yuan Sword: Mists Beyond the Mountains nunca se mostra propriamente desafiante.

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Xuan-Yuan Sword: Mists Beyond the Mountains tem alguns problemas de tradução, diálogos que, muitas vezes, não fazem muito sentido, animações que tentam mostrar aspirações de algo maior, mas que caem por terra sem qualquer propósito. Toda a direcção artística é consistente, cabe bem na embalagem que é inicialmente proposta, mas depois talvez por falta de mais recursos, Xuan-Yuan Sword cai na mediocridade. Em termos sonoros tem uma bagagem curta para uma proposta de um RPG que se tenta estender para lá das três dezenas de horas.

Análise de Xuan-Yuan Sword, um videogame ambientado em um mundo cativante com montanhas envoltas em névoa e um castelo impressionante ao fundo.

Um dos grandes pontos fortes de Xuan-Yuan Sword: Mists Beyond the Mountains é, sem qualquer dúvida, o seu estilo visual, de sprites pintados à mão em 2D. Toda a identidade visual é única, com cenários com cores que se destacam, com tons e toques subtis que fazem remeter aos traços de pincel, com um estilo muito oriental. Toda a estrutura 2D das cidades, dos mapas, das casas, lojas e edifícios, são bem feitos – os efeitos de água, por exemplo, embora simples, têm um toque singular. Xuan-Yuan Sword: Mists Beyond the Mountains tem charme e identidade artística única, e isso estende-se do início ao fim da jornada.

Xuan-Yuan Sword: Mists Beyond the Mountains encontra-se disponível para a Nintendo Switch e para o PC através da Steam.

CONCLUSÃO
Construído com peças de pouca qualidade
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xuan-yuan-sword-mists-beyond-the-mountains-analiseXuan-Yuan Sword: Mists Beyond the Mountains tem bases fortes de como um RPG pode parecer fresco e diferente, quase de outro planeta no meio de tantas ofertas, porém as peças com que foi revestido sofrem de alguma qualidade, sobretudo na forma como tenta artificialmente dar corpo ao jogo. A história tem um assento ambicioso, mas rapidamente perde consistência; a progressão das personagens, o crescimento do grupo, resume-se a pouco mais de duas; as batalhas por turnos, não são desafiantes e rapidamente se tornam aborrecidas, à expecção das batalhas contra os chefes, que infelizmente tendem a aumentar consideravelmente a dificuldade, mas a estratégia pouco muda. Xuan-Yuan Sword: Mists Beyond the Mountains vale por ser um produto exótico na forma como se apresenta, mas no meio das tantas ofertas disponíveis no mercado amplamente superiores, dificilmente deveria entrar como primeira escolha.