Desenvolvido pela EYES OUT, LLC. e publicado pela Blumhouse Games, Sleep Awake é daqueles jogos que chegam de mansinho, sem grande barulho. À primeira vista, parece mais um indie atmosférico que vive à custa de frases enigmáticas e corredores silenciosos, mas rapidamente percebe-se que há aqui mais do que apenas caminhar e observar. Inspirado num futuro sufocante à 1984, Sleep Awake entrega muito mais do que promete.
É na narrativa que Sleep Awake mais se destaca. O jogo constrói um mundo opressivo, onde a vigilância constante não é apenas um pano de fundo, mas uma presença quase física. Não há monstros a saltar de armários, mas há algo pior: uma PIDE inspirada na obra já anteriormente mencionada de George Orwell, numa sensação persistente de que nunca estás realmente sozinho.
Assumimos o papel de uma personagem comum, presa numa realidade onde a linha entre estar acordado e estar a dormir é cada vez mais difusa. Isto num mundo onde o sono é o teu segundo maior inimigo. Com a humanidade à beira de uma descoberta incrível, algo corre irremediavelmente mal, e todos, crianças e adultos, devem parar de sonhar para se manterem vivos. Nisto surgem “formas criativas” de garantir que nos mantemos despertos e focados.
Á medida que avançamos, o jogo vai explorando temas como controlo, privacidade, culpa e memória, sempre de forma contida, preferindo sugerir em vez de explicar. O enredo desenrola-se de maneira gradual, convidando o jogador a juntar as peças ao seu ritmo, enquanto a sensação de opressão cresce de forma constante.

Sem recorrer a choques fáceis, Sleep Awake constrói uma história intimista e emocional, que não vive de grandes reviravoltas, mas sim do impacto das pequenas revelações. É uma narrativa que abraça o jogador, desafia-o a refletir e prova que, por vezes, o verdadeiro terror está em perceber que talvez nunca tenhamos estado verdadeiramente no controlo.
A escrita é contida, mas eficaz. Em vez de despejar informação, o jogo prefere confiar no jogador, deixando que o ambiente, os diálogos e até os silêncios contem a história. E resulta. De facto, traz-me à flor da pele memórias que tive da primeira vez que entrei no mundo de Outlast, e igualmente deixa-nos com uma sede maior que o medo por explorar os detalhes e perscrutar os recantos mais escondidos. O enredo não só prende como, em certos momentos, consegue mesmo emocionar, criando uma ligação inesperada com o jogador. Sleep Awake não quer apenas que entendas o que está a acontecer — quer que sintas.

Nos primeiros momentos, é fácil catalogar Sleep Awake como “mais um walking simulator”. Andas, observas, interages aqui e ali, e segues em frente. Mas essa impressão não dura muito. À medida que o jogo avança, vão sendo introduzidas mecânicas que quebram essa monotonia inicial e obrigam o jogador a estar atento, a sentir-se coagido a tomar rédeas, tanto ao que faz como ao que evita fazer.
Sem entrar em spoilers, há sistemas que reforçam a tensão constante e transformam a exploração em algo mais ativo do que simplesmente andar para a frente. O ritmo é bem doseado e o jogo sabe quando acelerar e quando te deixar respirar — mesmo que seja aquela respiração curta, típica de quem sabe que algo não está bem.

O mais importante: o gameplay não enjoa, é ritmado ao som de uma verdadeira orquestra que ajuda a manter o interesse do inicio até ao fim. Quando acabei o jogo, até senti falta de regressar. Uma sede que me faz manter de baixo de olho os próximos desenvolvimentos da EYES OUT, LLC.
Visualmente, Sleep Awake não tenta impressionar com fidelidade gráfica, mas sim com coerência estética. Os cenários são frios, desaturados, funcionais e deliberadamente desconfortáveis, reforçando a sensação de um mundo que já desistiu de ser acolhedor. Tudo parece abandonado, assolador, por vezes até gritante — e isso joga a favor da experiência.
O design sonoro merece destaque. O silêncio é usado como arma, e quando o som surge, é sempre com intenção. Pequenos ruídos, vozes distantes e música ambiente subtil contribuem para uma atmosfera sufocante que nunca te larga completamente, mesmo depois de pousares o comando.
Sleep Awake já está disponível para a PlayStation 5, Xbox Series X|S e na Steam para PC.
Agradecimento à editora por ter cedido gentilmente o jogo para análise.






























