Há algo de estranhamente reconfortante em jogos que não tentam reinventar completamente a roda. Títulos que pegam em ideias familiares, ajustam aqui e ali, acrescentam um pequeno toque e deixam-nos simplesmente relaxar enquanto exploramos o seu mundo. Collector’s Cove, o novo título da VoodooDuck encaixa perfeitamente nesse tipo de experiência. Não é um jogo que tenta ser revolucionário, e nem todos os jogos precisam de o ser, desde que haja esforço e um pouco de originalidade. O seu encanto está precisamente na simplicidade e na forma como mistura sistemas conhecidos com algumas ideias curiosas.

À primeira vista, Collector’s Cove parece mais um daqueles jogos de farming e recolha de recursos que já vimos tantas vezes nos últimos anos, e na verdade até é. Mas rapidamente percebemos que há aqui uma pequena diferença conceptual: em vez de estarmos presos a uma quinta ou a uma pequena aldeia, grande parte da experiência acontece em alto mar. O oceano torna-se o pano do nosso campo de trabalho, o nosso mapa de exploração e, essencialmente, o coração de toda a progressão.

Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi a forma como o jogo lida com a câmara. Pode parecer um detalhe menor, mas faz uma diferença enorme na forma como vivemos o mundo de Collector’s Cove. Em vez de termos ângulos fixos ou limitações rígidas, podemos alternar e mover livremente o analógico direito para ajustar a câmara como quisermos. Esta liberdade dá uma sensação de controlo muito maior sobre o ambiente e ajuda bastante na imersão. É um daqueles pequenos pormenores que fazem toda a diferença na prática, especialmente quando estamos a navegar por sistemas de farming ou a procurar recursos específicos.

Logo no início recebemos também o nosso compêndio, que funciona como o grande guia de tudo o que existe no jogo. E aqui fica logo claro que Collector’s Cove não quer complicar demasiado a vida ao jogador. Pelo contrário, quase tudo é extremamente simples de aprender. A pesca, por exemplo, é muito directa e fácil de encaixar. O gathering de materiais também segue a mesma filosofia. Na maioria das situações, há praticamente um botão dedicado a cada ação. É intuitivo, rápido de perceber e não exige grande curva de aprendizagem.

Claro que essa simplicidade não significa ausência de sistemas interessantes. Um dos elementos que ajuda a dar alguma profundidade ao mundo é a forma como o jogo trabalha a fauna e os recursos disponíveis. A temperatura e os horários do dia influenciam bastante o aparecimento de certas criaturas. Há peixes que só surgem durante determinados períodos, outros que preferem águas mais frias ou mais quentes. Uma vez mais, não é nada que já não tenhamos visto antes em jogos do género, mas funciona bem aqui e dá aquele pequeno incentivo extra para explorarmos diferentes horários e zonas do mapa.

O compêndio acaba por ser fundamental nesse aspeto. Visualmente é bastante minimalista, quase austero até, mas cumpre perfeitamente a sua função. Tudo está organizado de forma clara: onde encontrar determinados peixes, que materiais existem, quais as roupas disponíveis, os alimentos que podemos preparar e assim por diante. Não há excesso de menus nem complicações desnecessárias. É simples, eficaz e fácil de consultar a qualquer momento.

Mas se há algo que realmente diferencia Collector’s Cove de outros jogos de farming e recolha é a criatura que nos acompanha ao longo da aventura. Em vez de um simples barco ou meio de transporte genérico, temos uma criatura mística que nos leva de um lado para o outro pelos oceanos. E sinceramente, é difícil não ficar imediatamente apegado a ela.

Este animal pode ser personalizado tal como o nosso personagem, e rapidamente se torna uma espécie de companheiro constante. É também uma das presenças mais adoráveis de todo o jogo. Há algo muito querido na forma como reage ao mundo à sua volta. Não é apenas um meio de transporte, e parece verdadeiramente atento ao que nos rodeia. Em vários momentos avisa-nos de perigos próximos ou alerta-nos para destroços que possam estar escondidos nas águas. Além disso, temos também de cuidar dela, mas sem grandes responsabilidades. Alimentá-la faz parte da rotina e reforça ainda mais essa sensação de ligação. Não é um sistema complexo, mas ajuda a criar uma dinâmica interessante entre exploração e cuidado.

Naturalmente, nem tudo é perfeito. Em vários momentos torna-se evidente que Collector’s Cove não teve o maior dos orçamentos. Há algumas limitações que saltam à vista, especialmente nas animações. Certas ações parecem um pouco básicas ou repetitivas, e algumas estruturas do mundo também revelam um design bastante simples.

Um exemplo curioso surge logo com uma das personagens iniciais, que basicamente parece ser a mesma pessoa apresentada com pequenas personalizações diferentes. A própria equipa até parece brincar um pouco com essa situação dentro do jogo, o que ajuda a suavizar a questão. Ainda assim, é difícil não perceber que se trata provavelmente de uma consequência direta das limitações de recursos. Felizmente, estes detalhes acabam por não comprometer demasiado a experiência global. Collector’s Cove sabe exatamente o tipo de jogo que quer ser, e mantém-se fiel a essa identidade, e dentro do seu budget disponível.

A progressão segue uma estrutura bastante familiar para quem já passou por outros jogos do género. Quanto mais pescamos, mais evoluímos nas nossas capacidades. Gradualmente desbloqueamos melhorias que tornam a atividade mais eficiente: os peixes começam a fisgar mais rapidamente, a linha torna-se mais resistente, e eventualmente até desbloqueamos máquinas de pesca que facilitam ainda mais o processo.

O mesmo acontece com a agricultura e outras actividades de recolha. À medida que investimos tempo nelas, surgem novas oportunidades, ferramentas e melhorias. Nada disto é particularmente inovador, mas funciona bem dentro da lógica do jogo. É aquele tipo de progressão que cria um ciclo constante de recompensa: fazemos uma tarefa, melhoramos ligeiramente, e voltamos a fazê-la de forma um pouco mais eficiente. Esse ciclo acaba por ser uma das razões pelas quais Collector’s Cove se torna tão fácil de jogar durante longas sessões sem dar por isso. Há sempre mais um peixe para apanhar, mais um recurso para recolher, mais uma pequena melhoria para desbloquear.

Dito isto, Collector’s Cove também deixa claro que não pretende competir diretamente com os gigantes do género. Pode muito bem servir como um excelente ponto de entrada para quem nunca se aventurou em cozy farming games. Aliás, diria mesmo que é quase ideal para esse público. A sua simplicidade, os sistemas acessíveis e o ritmo descontraído tornam-no bastante acolhedor para novos jogadores.

Por outro lado, quem já conhece o verdadeiro creme de la creme do género poderá sentir alguma falta de profundidade ou inovação. Collector’s Cove não apresenta grandes desafios e raramente surpreende com mecânicas completamente novas. O que encontramos aqui é sobretudo conforto: criaturas muito queridas, um ciclo de gameplay fácil de compreender e muitas horas de repetição entre ilhas que acabam por partilhar estruturas bastante semelhantes.

Um agradecimento especial à editora pela cedência de uma cópia para análise.

CONCLUSÃO
Cute & Cozy
7.5
Igor Gonçalves
Curioso, explorador, e fã de videojogos desde que me lembro, e em especial pela saga Metal Gear. Não jogo plataformas, jogo jogos.
collectors-cove-analiseNo final de contas, Collector’s Cove é um jogo que vive do seu charme e da sua acessibilidade. Não é o título mais profundo nem o mais ambicioso do género, mas também não precisa de o ser. Às vezes tudo o que queremos é navegar calmamente pelo mapa, apanhar alguns peixes e passar tempo com uma criatura adorável que nos acompanha na viagem. E nesse aspecto, Collector’s Cove cumpre muito bem o seu papel.