Há uma parte de mim que quer aprofundar ao máximo este assunto, outra parte que percebe que não há necessidade de mergulhar muito no tema e uma terceira parte ainda que acredita que o ideal é equilibrar a densidade do que se escreve com a capacidade de o tornar percetível. E acabou por ser esta terceira parte a levar a melhor.
A História, como um todo, é construída com eras, épocas e décadas. O mesmo acontece com todas as ramificações de cada elemento da História, e a Cultura e a Arte não fogem à regra. Por muito que a animação possa ser encarada como parente afastada do Cinema, ela desempenha um papel importante e comporta, na sua essência, os seus próprios períodos e momentos de mudança.
É sobre estes intervalos, neste caso da Disney, gigante mundial da animação fundada em 1923, que escrevo neste artigo. Uma pequena viagem no tempo pelas eras da companhia, pelos filmes que as integram e pelos principais traços e pontos de viragem de cada uma. E começamos com um ouro ao qual o Robin dos Bosques ainda não podia deitar a mão!

Era de Ouro (1937-1942)
Antes da primeira longa-metragem animada da Disney, A Branca de Neve e os Sete Anões, as produções do estúdio focavam-se em pequenas curtas-metragens. A preto e branco e inicialmente sem som, estas animações de poucos minutos foram dando os primeiros passos para que, anos mais tarde, princesas, príncipes, heróis e vilões pudessem correr.
Assim, os portões do castelo das longas-metragens da Disney abriram-se em 1937, ano em que A Branca de Neve e os Sete Anões estreou no grande ecrã. Com pouco mais de uma hora, esta primeira longa-metragem animada do estúdio apresentou um conto original dos Irmãos Grimm, combinando os géneros de animação e musical, numa receita que a Disney continuou a implementar e a aprimorar. Esta combinação balizou algumas das eras da própria empresa, tendo sido crucial no arranque dos anos 90, para o ressurgimento, após uma fase menos positiva.

Com as aventuras e desventuras de Branca de Neve e dos seus sete amigos, a Era de Ouro estava oficialmente inaugurada e acabou por trazer grandes sucessos do estúdio, incluindo nomes merecedores de sequelas, recentes versões em live action e novas adaptações: Pinóquio (1940), Dumbo (1941) e Bambi (1942). Estes três títulos, dignos do rótulo de “contos de encantar”, têm em comum o facto de desfolharem histórias ternurentas e simultaneamente desconcertantes, eixos sobre os quais assentou a Era de Ouro, marcada pelo dramatismo, pelo peso narrativo e por tons carregados. Com momentos que nos tocam no coração e que são facilmente identificáveis em cada uma das longas-metragens, é como se, pelo menos estes três filmes, tivessem aberto caminho para que a Disney e mais tarde a Pixar ascendessem a mestres da empatia e da comunicação de emoções e sentimentos.
Antes de prosseguir, uma nota breve nesta secção para o incompreendido Fantasia. Remar no tempo, atracar em 1940, há mais ou menos 85 anos, e procurar criar arte em torno da animação com as ferramentas existentes não seria tarefa fácil para qualquer profissional dos dias de hoje. Certo é que alguém o fez então e, em Fantasia, Walt Disney combinou animação, música e coordenação numa obra que alia o humano e o animado num verdadeiro espetáculo audiovisual. Um dos pontos altos da Era de Ouro, que costuma passar despercebido a olhares mais desatentos.
Era de Prata (1950-1969)
Entre a Era de Ouro, cujo principal e talvez único sucesso de bilheteira fora A Branca de Neve e os Sete Anões, e a Era de Prata, decorreu o Período de Guerra em que muitas animações tinham como base o assunto bélico. No entanto, este interregno trouxe novas obras e, ao sabor do avançar dos tempos, despertou, no início da década de 1950 uma das mais belas e encantadoras eras da animação Disney. E isto é apenas a minha opinião, porque, segundo consta, o consenso em torno da qualidade da Era de Prata é pouco comum.

Como tudo é feito de aprendizagem (e ainda mais o era décadas atrás), a Era de Prata retomou naturalmente o trabalho iniciado na Era de Ouro, dando cor, movimento e música a contos e obras tradicionais. No seguimento do que escrevi no primeiro parágrafo desta secção, uma parte considerável dos filmes da Disney de que mais gosto nasceu nesta era. Cinderela (1950), Peter Pan (1953), A Dama e o Vagabundo (1955), Os 101 Dálmatas (1961) e A Espada Era a Lei (1963) ocupam lugares de destaque na minha lista de obras preferidas do estúdio e no meu rol de filmes de conforto.
Os cenários detalhados e inspiradores – como é possível observar em A Bela Adormecida e Cinderela, por exemplo –, os traços aperfeiçoados em relação ao que era feito dez anos antes e a aposta em personagens intemporais e vincadamente únicos, como é o caso de Merlim, de A Espada Era a Lei, Maléfica, de A Bela Adormecida (1959), ou Cruella de Vil, de Os 101 Dálmatas, deram à Era de Prata um toque dourado, valorizado pelo facto de se tratar de um trabalho feito há mais de 60 ou 70 anos.

Para enquadrar e fechar esta era, no leque de longas-metragens que compõe estas décadas da Disney, para além dos filmes citados nos parágrafos anteriores, estão ainda os clássicos Alice no País das Maravilhas (1951) e O Livro da Selva (1967). Depois de duas eras em que as produções foram orientadas sob o olhar atento do próprio Walt Disney, a década de 1970 trouxe um sabor amargo à companhia e à própria animação.
Era de Bronze ou Era Sombria (1970-1988)
Após a morte de Walt Disney, a 15 de dezembro de 1966, o estúdio entrou numa fase complexa e de rumo incerto. Esta Era de Bronze, curiosamente conhecida por Era Sombria, condena o trabalho feito com uma descida de qualidade percebida, embora isso seja (como praticamente tudo) relativo. Passou-se do ouro à prata, ainda que eu considere a prata melhor do que o ouro, pelo menos neste caso, e depois passou-se da prata ao bronze.
O que é certo é que esta foi uma das mais notórias e vincadas mudanças de eras. Os contos desapareceram quase na totalidade e o catálogo da Era de Bronze acabou marcado por longas-metragens protagonizadas por animais. Na verdade, salvo uma ou outra exceção, as principais obras deste período giram em torno de animais pensantes e falantes, dotados de características humanas, numa visão que acaba por ir além da própria fábula.

Os Aristogatos (1970), Robin dos Bosques (1973), Papuça e Dentuça (1981) e Oliver e Seus Amigos (1988) são alguns dos exemplos que ilustram o legado da Era de Bronze (não gosto do nome Era Sombria) na animação de patudos e amigos de quatro patas. O menor registo de caráter musical, outrora frequente em obras anteriores, é igualmente um ponto a destacar neste período pós-Walt Disney.
Dois dos meus filmes preferidos do estúdio, As Aventuras de Bernardo e Bianca (1977) e Rato Basílio, o Grande Mestre dos Detetives (1986), ambos muito subvalorizados, nasceram nesta era, e, à boleia de simpáticos e engenhosos ratinhos, servem formas distintas de narrar histórias imponentes e munidas de mistério e personagens complexos.
Curiosamente, a Era de Bronze inclui um dos mais populares nomes do estúdio: As Aventuras de Winne The Pooh (1977), que apresentou Pooh ao grande auditório, catapultando-o para o estrelato do qual nunca mais saiu; e um dos filmes menos populares: Taran e o Caldeirão Mágico (1985), habitualmente o rosto desta época menos bem sucedida da animação.

Nesta etapa, começou a ser feito algum trabalho de transição do desenho manual para a xerografia, tornando a era em anos marcados pela experimentação, algo que viria a repetir-se mais tarde. Um período menos frutífero, sobretudo se olharmos às bilheteiras e à fama alcançada pelas longas-metragens lançadas, que abriu portas à mais unânime e quiçá bem sucedida era de sempre da Disney.
Era do Renascimento (1989-1999)
Porque não há mal que sempre dure, a Era de Bronze acabou por ver a luz e, no final da década de 1980, a Disney renasceu para um período de franco sucesso. O Renascimento, como o nome indica, representa uma era pós-sombria, durante a qual a companhia regressou à animação baseada em contos tradicionais e histórias clássicas, alcançando o sucesso com obras que marcaram a infância das gerações dos anos 80, 90 e 2000.
Neste período, a empresa resgatou o ingrediente musical, ausente nas receitas da Era de Bronze, e temperou as novas obras com uma mistura que havia funcionado noutros tempos e que se revelou novamente um êxito. A Pequena Sereia (1989), A Bela e o Monstro (1991), Mulan (1998) e Pocahontas (1995) trouxeram novas princesas (ou quase princesas) ao elenco da Disney, e, por sua vez, Aladino (1992), Hércules (1997), Bernardo e Bianca na Cangurulândia (1990) e Tarzan (1999) reforçaram o grupo de heróis, no qual se inclui, com honra e mérito, a quase princesa Mulan.

Outras histórias musicais de relevo, nomeadamente O Corcunda de Notre Dame (1996) e O Rei Leão (1994) estabeleceram-se como marcos históricos na Era do Renascimento, imortalizando personagens como Quasimodo, Esmeralda, Simba ou Scar e surpreendendo miúdos e graúdos com peças musicais inesquecíveis.
A Era do Renascimento, que coincidiu com a projeção da Pixar e das primeiras obras do estúdio, ofereceu animação viva, colorida e musical e deu à Disney um novo impulso e uma nova perspetiva de futuro. No fundo, alinhado com o que as pessoas sentiam em relação à passagem para o novo milénio: a esperança num amanhã melhor, mais luminoso e mais feliz.
Era do Pós-Renascimento (2000-2009)
A Era do Renascimento elevou bastante a fasquia na animação e no Cinema em geral. Diversas sequelas e filmes adicionais foram sendo lançados, resgatando personagens, cenários e contextos pelos quais o público nutria afeição e proximidade. Com o balanço gerado no final dos anos 90, o importante era manter a qualidade e superar o que tinha sido feito antes, melhorando e, acima de tudo, experimentando. Foi com base nessa experimentação que surgiu a Era do Pós-Renascimento, que ocupou a primeira década do novo milénio. Graças a novas técnicas e novas abordagens, a Disney optou por contar histórias irreverentes, combinando elementos das eras anteriores, incluindo da mal-afamada Era de Bronze.
A imaginação rompeu na Era do Pós-Renascimento. Os contos tradicionais voltaram a ficar na gaveta e o pensamento disruptivo saltou cá para fora. Do passado, como vemos em Dinossauro (2000), que acabou por abrir portas à animação feita em computador, ao futuro, em por exemplo Os Robinsons (2007); e atravessando latitudes diferentes, como em Pacha e o Imperador (2000), Lilo e Stitch (2002) e Kenai e Koda (2003), este novo período disse “presente!” com a procura de novos estilos e novas abordagens narrativas e visuais.

E a versatilidade não tinha limites! Num dia podíamos ser levados a salvar um continente submerso, em Atlântida: O Continente Perdido (2001), na manhã seguinte estávamos à deriva no espaço, em O Planeta do Tesouro (2002), e ao final do dia víamo-nos entre penas e fardos de palha, n’ O Paraíso da Barafunda (2004). Um eclético espectro de inspirações e conceitos, no qual se incluem Chicken Little (2005) e Bolt (2008), no qual o único ponto comum entre as suas longas-metragens é o facto de não existir um ponto comum.
Feitas as experiências, e ainda com espaço para um novo Fantasia, o Fantasia 2000 (1999), que marcou a transição para a Era do Pós-Renascimento, chegou o momento de fazer as malas e rumar para a mais recente época da animação, a que combina ainda mais os elementos sobre os quais escrevi neste capítulo.
Era do Revivalismo (2010)
Decidi não elaborar muito sobre eras pós-Pós-Renascimento, embora agora possamos começar a discorrer sobre o mundo digital, a inovação e tudo mais, até porque creio que o importante e interessante do artigo esteja no pré-novo milénio e não no pós-novo milénio. De qualquer modo, é importante ressalvar a forma como a Era do Revivalismo, a última sobre a qual escrevo, conseguiu combinar todo o conhecimento e a experiência gerados e adquiridos na Era de Ouro, na Era de Prata, na Era de Bronze, na Era do Renascimento e até na Era do Pós-Renascimento.
Assim sendo, neste último período, cujo início marca o arranque da segunda década dos anos 2000, houve espaço para histórias de encantar clássicas, como A Princesa e o Sapo (2009), na transição entre eras, e Entrelaçados (2010). Houve também espaço para reformulações de contos, ideias e personagens originais, como aconteceu em Frozen (2013) e Winnie The Pooh (2011), por estes anos experiente em aparições cinematográficas. A estrutura assente em canções e momentos musicais não foi esquecida e nasceram na Era do Revivalismo grandes êxitos, como o inconfundível Let It Go, de Frozen.
A experimentação, desenvolvida na era anterior a esta, deu origem a filmes como Força Ralph! (2012) e Big Hero 6 (2014), que procuraram criar novas histórias e unir o presente e o futuro, alimentando essa união com uma sopa de referências que procurava cativar o público.

E assim termina a viagem! Com a clara noção de que, ao longo dos anos, a Disney foi sendo capaz de aprender, evoluir, experimentar, arriscar e criar, dando vida a histórias, canções e personagens que resistiram ao tempo e ao espaço… e não falo apenas de Mickey, Donald, Minnie e Pateta, mas de todos os protagonistas e antagonistas e continuam bem vivos no nosso imaginário.
Atualmente, com as coleções disponíveis em VHS, DVD e Blu-Ray e sobretudo com o catálogo disponível na plataforma Disney+, as obras da Disney, dos clássicos aos títulos mais recentes, estão à distância de um clique. Descobrir e reviver a magia destas longas-metragens e de todas as personagens que atravessaram eras, décadas e gerações é mais do que girar um disco ou recordar diálogos e momentos emocionantes. É mergulhar em mundos únicos e criados com imaginação, carinho e dedicação… no fundo, tudo o que podemos pedir quando procuramos nostalgia, conforto e uma fuga rápida do mundo real.































