Estava eu bem na minha vida e a Paradox lembra-se de desenvolver mais um vício de estratégia…

Europa Universalis V inspira-se no legado dos títulos anteriores, e ao mesmo tempo destaca-se como um monumento à complexidade e à simulação histórica, introduzindo profundas revisões num sistema que já vingava pelas ramificações políticas e narrativas que caracterizou qualquer império.

Embora Europa Universalis IV se tenha implementado como um pilar da complexidade na construção de nações e jogabilidade dinástica, a série deu um salto em frente, colocando a simulação ao nível da população no seu centro. Em vez de gerir blocos de províncias com culturas ou religiões monolíticas, interajo agora com populações vivas – cada “pop” tem uma cultura, religião, classe e necessidades económicas distintas. O sistema de Estates do governo é um pilar fundamental, onde nobres, clérigos, burgueses e camponeses (com a própria coroa como um bloco de poder concorrente) perseguem cada um os seus próprios objectivos, tornando cada decisão política num ato de equilíbrio. A profundidade que isto acrescenta é altamente estimulante, mas ao mesmo tempo, inicialmente avassaladora.

O novo sistema de população significa que cada cidade, quinta e nó de recursos são povoados por milhares de indivíduos simulados, cada um afectando a produção, a estabilidade e a sociedade. Isto leva a eventos emergentes e mudanças sociais, pelo que a gestão da nação está agora diretamente ligada ao pulso da sociedade que se desenrola nos bastidores. Os Estates exigem uma atenção regular, alterando as políticas nacionais, a tributação e até provocando conflitos internos se forem mal geridos. A longo prazo, vemos enfatizada a adaptação, à medida que o mundo muda, onde os valores sociais e até mesmo os empregos se reformulam ao longo dos séculos.

O combate beneficia de novas mecânicas tanto no terreno como na logística. A revisão da logística,
à semelhança da profundidade introduzida nos sistemas sociais, introduz um planeamento estratégico que relembra os jogos de guerra mais radicais, o que leva a que novamente, alguns considerem esta camada bastante intimidante no início. Ainda assim, travar guerras parece mais consequente, seja a andar na lama ou a organizar bloqueios navais épicos, nunca é apenas uma questão de clicar e esperar, mas antes uma orquestração cuidadosa.

Europa Universalis sempre foi um jogo sandbox-y na sua essência, no entanto, encontramos um sistema de “histórias históricas” na campanha. Começamos como Inglaterra durante a Guerra dos Cem Anos, ou Portugal nos primórdios da exploração. São-nos lançados objectivos dinâmicos e crises, tecendo “arcos de campanha” com curadoria, mas ao mesmo tempo mantendo a rédea solta de que esta comunidade tanto gosta.

Dentro da simulação e evolução social em sandbox, encontramos o champanhe da Paradox. O planeamento e consequências estendem-se desde as populações ao nível das ruas até aos eventos emergentes das “celebridades”, levando a descobertas orgânicas e profundas mudanças culturais. Ao longo de 500 anos, vemos o mundo transformar-se organicamente, seja através de revoluções religiosas, pragas, avanços tecnológicos ou puramente agitação social que ecoam pelas décadas. Algo que me pareceu limitado, mas infelizmente bastante realista, é que as fronteiras estabilizam ou estagnam frequentemente após o início do período moderno, o que afeta o valor de repetição infinito em que tanto gosto de mergulhar.

O modo multijogador encontra-se mais simples, mas mais robusto do que em Europa Universalis IV, trazendo guerras colossais e alianças variáveis entre impérios controlados por humanos. Os novos sistemas, ao mesmo que tornaram o jogo mais interessante, como já referi, trouxeram consigo uma maior complexidade, o que leva a que o tempo de execução signifique que nem todas as sessões são tão “agradáveis”.

Para um jogo desta dimensão, Europa Universalis V saiu bastante estável, embora tenha encontrado falhas ocasionais e lentidão, que podem estragar algumas sessões de fim de jogo. A inteligência artificial mantém-se um pouco errática, levando por exemplo, à criação de fronteiras invulgares. Seria claro de esperar que num jogo com todos estes cálculos, surgissem bugs, e embora sejam raros os que estragam o jogo, ainda aparecem.

A remodelação visual é impressionante, embora desigual. O mapa encontra-se mais pormenorizado do que nunca, com cada rio ou passagem de montanha devidamente representados. A colocação de cidades e exércitos traz vida a este detalhado mundo, onde podemos ver o crescimento ou a devastação em tempo real. No entanto, subsistem algumas particularidades, como artefactos gráficos em áreas acidentadas, que por vezes me quebraram a imersão. Na vertente sonora, a banda sonora e o design de som mantêm-se enérgicos, mas senti que a música e o ambiente não têm a grandiosidade de outros títulos da Paradox. Acaba por cumprir o seu dever, mas nem sempre está ao nível dos visuais ou da ambição que encontramos nestes imensos e profundos sistemas.

Um agradecimento especial à editora pela cedência de uma cópia digital para PC.

CONCLUSÃO
Paradoxal
8.7
Matilde Silva
Gosto de caminhadas na ténue linha entre a análise e a opinião
europa-universalis-v-pc-anliseEuropa Universalis V traz uma evolução significativa para a prestigiada saga. Mais profundo, dinâmico e, em muitos aspectos, menos indulgente do que os antecessores. A alma da série mantém-se intacta, mas o foco renovado e direcionado à simulação histórica envolveu-me em todos os níveis de governação, desde o mais humilde campesinato até à mais alta estratégia e diplomacia