Hunt the Night é daqueles casos que mesmo nascendo claramente inspirados por outras obras, ainda assim conseguem encontrar uma identidade muito própria e única. Desenvolvido pela Moonlight Games e distribuido pela DANGEN ENTERTAINMENT, este título em pixel art foi lançado originalmente para PC em 2023, mas só agora, em Fevereiro de 2026, chegou finalmente às consolas. Uma espera relativamente longa, mas que acaba por valer a pena para quem aprecia aventuras sombrias cheias de ação, exploração e uma atmosfera constantemente opressiva.

À primeira vista, é impossível não pensar em Bloodborne. Sim, percebemos que o estilo não é de todo o da FromSoftware, mas porque a sensação de perigo constante, os bonfires, o mundo decadente e a presença de criaturas grotescas fazem lembrar esse universo gótico e lovecraftiano. E a banda sonora? Incrívelmente semelhante… Ao mesmo tempo, Hunt the Night mistura essa inspiração com mecânicas mais clássicas de aventuras em perspetiva top-down, criando uma experiência que fica algures entre um Zelda mais agressivo e um soulslike em versão 2D.

A história leva-nos até ao mundo de Medhram, um lugar onde os dias pertencem à humanidade, mas as noites são dominadas por monstros. Durante séculos, os humanos lutaram para sobreviver a esse ciclo cruel. Para enfrentar as criaturas da escuridão, surgiu uma ordem conhecida como os Stalkers, que são basicamente os guerreiros que utilizam poderes ligados à própria noite para combater o mal que ameaça consumir o mundo. É neste contexto que surge Vesper, a protagonista da aventura. Como membro dessa ordem, cabe-lhe enfrentar os horrores que começam novamente a espalhar-se por Medhram e impedir que o mundo seja engolido por uma noite eterna. A narrativa não tenta reinventar completamente a roda, mas funciona bem como base para o que realmente importa: explorar este universo cheio de mistério, ruínas esquecidas e criaturas dignas de um pesadelo.

Visualmente, Hunt the Night é um jogo que impressiona pela forma como utiliza o pixel art para criar ambientes densos e sombrios. Castelos abandonados, florestas corrompidas e masmorras decadentes compõem um mundo que parece permanentemente à beira do colapso. A estética lembra muito os jogos da era 16-bit, mas com um toque moderno que lhe dá bastante personalidade. Os monstros, em particular, são um dos grandes destaques apesar que do meio para o fim, já temos tudo decorado tanto visualmente, como mecanicamente. Há claramente uma forte influência lovecraftiana nas criaturas que encontramos, com tentáculos, formas distorcidas e presenças grotescas que parecem saídas diretamente de um pesadelo cósmico. Essa direção artística contribui bastante para a sensação de estarmos constantemente num mundo que poderia muito bem existir no mesmo universo espiritual de Bloodborne.

No entanto, não é apenas o aspeto visual que constrói essa atmosfera. A banda sonora é absolutamente fantástica. Cada área tem composições que intensificam o sentimento de tensão e mistério, alternando entre momentos mais melancólicos e outros claramente mais épicos. Há faixas que conseguem elevar batalhas contra bosses a momentos verdadeiramente memoráveis, e outras que fazem a exploração parecer quase inquietante. É uma daquelas bandas sonoras que facilmente ficaria bem mesmo fora do jogo.

No que toca à jogabilidade, Hunt the Night apresenta um combate rápido e exigente. Vesper pode utilizar várias armas de combate corpo a corpo, cada uma com características próprias. Algumas privilegiam velocidade e mobilidade, enquanto outras apostam em ataques mais pesados e devastadores. Esta variedade permite adaptar o estilo de jogo a diferentes situações ou preferências. Mas o combate não se limita apenas ao contacto direto. A protagonista também possui armas de fogo, algo que introduz uma dinâmica interessante nas batalhas. O sistema funciona com munição limitada, o que obriga a usar os disparos de forma estratégica. Para recuperar balas, é necessário acertar ataques corpo a corpo nos inimigos, criando um ciclo bastante dinâmico entre atacar de perto e usar ataques à distância.

Esta mecânica acaba por tornar os combates bastante intensos. Há momentos em que tudo acontece muito rapidamente: esquivar, atacar, disparar, reposicionar e repetir. Quando vários inimigos aparecem ao mesmo tempo, especialmente aqueles que atacam à distância; o jogo pode transformar-se quase num pequeno bullet-hell improvisado, que nos aleija bem emocionalmente falando. É fácil acabares suar depois da luta com um dos incríveis e desafiantes bosses.

Outro elemento importante da experiência é a exploração. Hunt the Night aposta bastante em masmorras complexas cheias de puzzles, passagens escondidas e segredos. Não é apenas um jogo de avançar e derrotar inimigos; há muitas situações que exigem atenção aos detalhes do cenário ou interpretação de pistas espalhadas pelo mundo. Alguns puzzles são surpreendentemente elaborados e obrigam mesmo a parar um pouco para pensar. Em certos casos, pode ser necessário observar símbolos, interpretar textos ou descobrir padrões no ambiente. Essa vertente ajuda a equilibrar o ritmo da aventura e impede que tudo se resuma a combate constante.

Claro que também há desafios pelo caminho. O jogo não tem medo de ser exigente, e algumas batalhas contra bosses podem ser verdadeiros testes de paciência e reflexos. Há inimigos que castigam qualquer erro, e a margem para falhas nem sempre é grande. Para alguns jogadores isto pode gerar momentos de frustração, mas também torna cada vitória bastante mais satisfatória.

Felizmente, o game design do mundo recompensa quem explora bem cada área. Novas armas, melhorias de habilidades e itens importantes estão frequentemente escondidos fora do caminho principal. Esse incentivo faz com que seja difícil resistir à tentação de investigar cada canto de Medhram que poucas indicações nos dá como percurso.

No final de contas, Hunt the Night é uma carta de amor aos jogos de ação e aventura clássicos, mas com uma identidade bastante própria. Consegue misturar influências claras de títulos como The Legend of Zelda, Bloodborne ou até alguns RPGs retro, sem parecer apenas uma colagem de ideias. O resultado é uma aventura intensa, sombria e surpreendentemente envolvente. Entre a direção artística marcante, a excelente banda sonora e um combate desafiante, é fácil perceber porque é que o jogo conquistou tantos jogadores desde o seu lançamento original no PC.

Agora que finalmente chegou às consolas em 2026, Hunt the Night tem tudo para encontrar um público ainda maior. Para quem gosta de mundos góticos, desafios exigentes e aquela constante sensação de estar a lutar contra algo muito maior do que nós, esta é uma viagem que vale mesmo a pena.

Um agradecimento à editora pela cedência de uma cópia digital para análise










CONCLUSÃO
Atmosférico
9
hunt-the-night-analiseHunt the Night traz às consolas em 2026 uma aventura sombria em pixel art que mistura exploração, puzzles e combates intensos num mundo com claras vibes de Bloodborne. Um título desafiante, atmosférico e com uma banda sonora fantástica que merece atenção.