Desenvolvido pela Square Enix e Artdink, Triangle Strategy é uma nova e surpreendente aposta no género de RPG’s táticos para a Nintendo Switch. Tendo em consideração que a equipa responsável foi liderada por Tomoya Asano, produtor de Bravely Default e Octopath Traveler, as expectativas encontravam-se no topo da torre de Babel ainda que, mesmo após várias horas de intriga política à lá Game of Thrones, este impressionar ou desapontar dependerá do gosto individual de cada um, mesmo dentro do género onde está inserido.

Esta “Estratégia Triangular” não espera pela demora e apresenta a história, logo nas primeiras horas iniciais, como elemento principal mais complexo da aventura. Como qualquer boa narrativa esta é aberta com um sentimento de falsa segurança: uma feliz e alegre celebração de um casamento arranjado, por motivos pacíficos, toma palco. Mas rapidamente explode numa luta moral e ética onde cada família apresenta os seus motivos, através de sequências cinemáticas muito longas, para fortalecer a sua posição no conflito decorrente. Quiçá o mais divertido de todo o enredo será não a história em geral, mas sim o que cada personagem traz à mesa com a sua personalidade e convicção, algo que faz muito sentido.

Quanto mais joguei de Triangle Strategy melhor compreendi que o seu enredo é uma autêntica espada de dois gumes. Não existe dúvida alguma que o extenso cardápio de personagens e subsequentes maquinações políticas sejam o prato principal a digerir sequência cinemática atrás de sequência cinemática mas, por outro lado, é uma labuta assistir ao paradeiro de toda a santa personagem na história. Esta decisão consegue causar um pequeno desequilíbrio na aventura, demorando imenso até existir um combate que necessite uma participação ativa por parte do jogador. Porém se o enredo apelar ao interesse do indivíduo, como foi o meu caso, esta problemática transforma-se numa consideração a posteriori; os prós superam os contras, por assim dizer.

Uma surpresa a realçar é como Triangle Strategy subverte subtilmente as expectativas de quem se considera um ávido maestro nas andanças deste género. Considerando a abertura do enredo e a personalidade cavalheiresca de Serenoa é assumido, quase de imediato, que a sua família são os “bons da fita”, torcendo o nariz a todos os restantes participantes no conflito político. Contudo, quanto mais desenrolamos o novelo do enredo maior compreendemos a flexibilidade de cada interveniente.

Uma das queixas, no entanto, encontra-se na dobragem em Inglês (não testei Japonês). É positivo que todas as sequências cinemáticas de renome tenham voz, mas muitas das linhas são entregues quase em tom monocórdico, não mencionando quão desinteressantes aparentam. Com toda a honestidade, no entanto, não é surpreendente considerando quão pouco desenvolvidas algumas personagens são. Serenoa, por exemplo, é uma personagem principal que destaca-se pelo seu cavalheirismo e pouco mais. Entende-se o porquê desta decisão, mas não deixa de ser um reparo que tem de ser feito.

Apesar das quase trinta horas de jogo serem gastas em diálogo (parte dele cheio de pompa e circunstância sem substância) o enredo de Triangle Strategy está enraizado num sistema denominado como Scales of Conviction. O que separa este joio do restante trigo é o suprareferido elemento representar uma verdadeira democracia desigual de outros títulos onde o poder de escolha final recai sempre sob o jogador. Durante a aventura decorrerão várias decisões a tomar pelo grupo, com Serenoa a sondar cada opinião individual para tentar (ou não) convencer os intervenientes do contrário.

Para obter os argumentos complementares à arte da persuasão Serenoa necessita de percorrer segmentos simples de exploração. Estes desvios que Triangle Strategy introduz, durante a narrativa, são pouco mais do que justificações rotineiras para mais parlapiê com uma mão cheia de NPCs desinteressantes (na maior parte das vezes). Inclusive caso não fales com uma seleta personagem é provável que futuras tentativas de persuasão falhem redondamente.

Ainda assim Triangle Strategy emprega momentos de subversão inteligente devido aos argumentos recém-descobertos; como estes desbloqueiam novas opções de conversação ao tentar dissuadir alguém para uma escolha específica, automaticamente assumimos que essa é a certa e indicada a escolher. Contudo nem sempre a nova opção convence completamente, obrigando a considerar a personalidade da personagem com quem falamos para escolher o argumento mais adequado.

As side stories que aparecem durante o jogo também não surpreendem pela positiva, servindo como mais conversa passiva de café opcional. Não que isto represente um defeito a apontar por completo, mas a minha expectativa era, pelo menos, uma ou outra demanda acompanhada por uma batalha, não mais da mesma sopa que o título tem oferecido até então. Não obstante as duras palavras até ao momento deixo claro que Triangle Strategy expõe um enredo excelente e denso, demonstrando quão complicado é viver numa utopia moralmente perfeita com todos a quererem ser mais papistas que o pápa.

Por todas as opções não escolhidas e finais não obtidos Triangle Strategy dispõe de um New Game Plus, permitindo alterar o destino de Serenoa, desembrulhando os momentos mais críticos da narrativa de uma outra forma. Para um título com um enredo tão volumoso agradecido fiquei por esta oportunidade, desejando percorrer outro caminhos que divergem bastante dos inicialmente escolhidos.

O terceiro e último eixo deste Triangle Strategy desmarca-se como o elemento mais ativo e estratégico do título, relembrando clássicos como Final Fantasy Tactics, Tactics Ogre e até Fire Emblem. Fora as batalhas repetitivas e grindy do acampamento, sítio onde Serenoa e companhia se preparam, todos os acontecimentos mais importantes da história são antecedidos por batalhas semelhantes aos videojogos anteriormente referidos. Fãs do género compreenderão as mecânicas principais como movimentar ou atacar dentro de uma grelha, porém desta vez, cada membro da equipa tem a capacidade de controlar o decorrer do combate alterando, por exemplo, a ordem dos turnos ou aplicar buffs a aliados. É importante também não só ter em consideração a posição das nossas personagens, dado às vantagens associadas ao tipo de terreno onde se encontram, pois frequentemente uma má posição resulta num ataque crítico pelo inimigo, mas também pela utilização de magia e a combinação da mesma.

Constatei que apesar da narrativa ser pesada e demorada devido ao seu ritmo mais lento, o peso de cada batalha é sentido devidamente. Por um lado é satisfatório conseguir derrotar todos os inimigos e sair vitorioso, por outro Triangle Strategy tem pouco combate para a quantidade de enredo que apresenta. Muito frequentemente dei por mim a ler troços de texto na diagonal só para despachar até ao próximo conflito, algo que prejudicou em parte o meu entendimento de várias nuances na história; desnecessário será dizer que Triangle Strategy pede a tua atenção. Infelizmente, apesar de ser satisfatório a certo ponto, muitos dos critérios para vencer uma batalha ficam-se por “derrota todos os inimigos”. Entendo que seria logisticamente difícil fazer o contrário mas, por exemplo, uma das melhores batalhas marca permanentemente uma das aldeias na aventura precisamente pelo critério a ser cumprido.

Com uma batolada de personagens aptas a serem recrutadas em Triangle Strategy o mais interessante é criar uma equipa coesa em estratégia e, quiçá, com execução ortodoxa; afinal de contas uma das classes chama-se Wordsmith, alguém que luta com as palavras. Podemos testar as imensas combinações através dos combates simulados, disponíveis no acampamento para acumular experiência e não só. Fora as batalhas de história estes são a única alternativa para mais jogabilidade e desnecessário será dizer que não são assim tão interessantes quanto isso.

Apesar de não existirem elementos comuns no género como permadeath, a dificuldade em Triangle Strategy não perdoa. Mesmo na dificuldade Normal os inimigos são implacáveis tanto nos primeiros encontros como nos últimos, quase necessitando sacrificar durante a batalha algumas personagens, podendo levar a uma desvantagem mais tarde no desfecho da mesma. Felizmente, mesmo perdendo o combate, é retida toda a experiência acumulada e todos os items são restaurados, inevitavelmente ficando cada vez mais fácil quanto mais vezes é visitado o ecrã de Game Over. E por falar em níveis de dificuldade, Triangle Strategy emprega uma muito bem-vinda mecânica: alterar entre quatro patamares quando quisermos, semelhante ao que Shin Megami Tensei faz.

No acampamento é onde cada personagem efetua as suas melhorias: atualizar a sua classe a nível 10 e 20, modernizar as armas ou até comprar outros itens mais genéricos como materiais, acessórios ou consumíveis. Pode parecer confuso ao início, mas é um sistema muito simples apesar da interface gráfica nem sempre ser clara. Curiosamente, apesar de toda liberdade aquando de formar uma equipa, todas as atualizações são praticamente estáticas, pouca escolha existe e a única flexibilidade encontra-se em equipar dois acessórios. Pessoalmente é excelente visto que não gosto de tanta variedade assim, no entanto continua a ser um reparo a fazer independentemente do elenco enorme.

Como chamariz principal do título desde seu anúncio, o grafismo HD-2D continua em grande força depois de Octopath Traveler. Este impressiona tanto em modo TV como em modo portátil, cheio de efeitos coloridos e outros tantos, apesar das texturas serem de alguma fraca qualidade. Por sua vez toda a interface gráfica é razoavelmente limpa, ficando a faltar apenas uma opção de aumentar ou diminuir o tamanho destes elementos para melhor visibilidade em certos contextos. Ainda assim, por todas as odes cantadas não existe muito mais conteúdo em Triangle Strategy fora a história principal. Vale o preço de admissão pelo simples facto do modo história ser muito repetível, por forma a testemunhar os quatro finais diferentes e recrutar todas as outras personagens, mas também pelo acampamento desbloquear umas quantas preciosidades devido ao New Game Plus.

Triangle Strategy já se encontra disponível para a família de consolas Nintendo Switch. Uma demo também está disponível na Nintendo eShop.

CONCLUSÃO
Recomenda-se
7
Ulisses Domingues
Desde muito cedo um confesso apaixonado pelos mundos da PlayStation e consolas Nintendo. No entanto a vida dá muitas voltas e agora o seu amor foca-se nas novas Xbox Series. Nada como paixão à primeira vista, não é verdade?
triangle-strategy-analiseQuanto mais joguei e cativado pelo enredo fiquei de Triangle Strategy, mais entendi que a sua excelente história abrangente estava a alterar a minha crítica. É muito fácil deixarmo-nos levar pelo o que há de bom e fechar os olhos a tudo o resto, mas a verdade é que o mais recente título da Square-Enix tem alguns problemas: algumas personagens pouco desenvolvidas, pouco conteúdo fora da história principal, desequilíbrio entre exposição e ação, entre outros referidos na análise. Nem tudo é mau porque chega a ser um RPG tático divertido até certa medida, mais ainda após iniciar New Game Plus com todas as outras rotas por explorar; larga parte dos sistemas em questão também funcionam bem para o que são. É uma recomendação sólida a fazer para qualquer amante do género, só espero que tenham uma estratégia com vista a combater as longas sessões de diálogo.