Para chegar a The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon, é preciso trazer uma bagagem pesada. Não falo apenas de expectativas, mas de mais de uma década de histórias, personagens, conflitos políticos e mistérios cuidadosamente semeados pela Nihon Falcom ao longo de treze jogos. Este novo capítulo, jogado aqui na sua versão PlayStation 5, não tenta ser uma porta de entrada nem faz concessões a quem aparece agora. Pelo contrário: é um jogo que existe para recompensar quem esteve lá desde o início, e fá-lo de forma ambiciosa, imperfeita, mas memorável.

Depois da receção algo morna de Trails through Daybreak II, confesso que havia um certo receio no ar. A sensação de estagnação narrativa e de decisões anuladas deixou marcas. Beyond the Horizon surge, assim, como um ponto de viragem claro. Não é apenas uma continuação direta do arco de Calvard, mas um verdadeiro ponto de convergência para toda a saga. Pela primeira vez em muito tempo, sente-se que a história avança de forma decisiva, que as peças começam finalmente a encaixar, mesmo que Falcom continue a jogar com o mistério e a evitar respostas fáceis.

A estrutura narrativa assenta em três rotas distintas, protagonizadas por Van Arkride, Rean Schwarzer e Kevin Graham. Ao contrário de experiências passadas, esta divisão faz sentido e não fragmenta a narrativa principal. A rota de Van ocupa a maior fatia do jogo e funciona, na prática, como o verdadeiro eixo central da história. O ritmo inicial é lento, deliberadamente contido, quase excessivamente cauteloso. No entanto, a meio da aventura, a engrenagem começa a acelerar e, nos capítulos finais, o jogo transforma-se numa avalanche de revelações, ligações ao passado e momentos que redefinem a compreensão do mundo de Zemuria.

A rota de Kevin é, para mim, a mais intrigante. O regresso do antigo Heretic Hunter traz um tom mais sombrio e maduro, equilibrando humor mordaz com temas pesados e revelações de peso. Há aqui uma sensação constante de que estamos a espreitar os bastidores do grande palco da série, tocando em segredos antigos e em forças que operam nas sombras há muito mais tempo do que imaginávamos. É também nesta rota que se encontram alguns dos momentos mais bem ritmados e impactantes do jogo.

Já a rota de Rean, apesar de ser a menos surpreendente, justifica plenamente a sua existência. Não é apenas fanservice. Serve para explorar acontecimentos paralelos de grande importância e, sobretudo, para finalmente fechar ciclos há muito prometidos. Ver certas relações e confrontos ganharem forma é um momento emocionalmente forte para quem acompanhou o arco de Cold Steel desde o início.

Narrativamente, Trails Beyond The Horizon é um jogo de contrastes. Começa devagar, quase demasiado seguro de si, mas cresce de forma exponencial até atingir um clímax que representa o puro “espírito Trails”: tensão política, mistério cósmico, personagens em conflito e a constante sensação de que algo muito maior está prestes a acontecer. Curiosamente, apesar da enorme quantidade de informação revelada, o jogo termina com mais perguntas do que respostas. É um final que convida à reflexão, à teoria e à discussão, algo que a série sempre soube fazer bem.

No campo da gameplay, Falcom continua a refinar a fórmula híbrida entre ação em tempo real e combate por turnos. Aqui, o sistema atinge um dos seus pontos mais complexos e profundos. Novas mecânicas como o Z.O.C., comandos de Shard reformulados, BLTZ e o regresso de sistemas familiares dão ao jogador uma enorme variedade de ferramentas. Em combate por turnos, a profundidade estratégica é impressionante, especialmente em dificuldades mais elevadas, onde cada buff, debuff e posicionamento pode decidir uma batalha.

No entanto, nem tudo é perfeito. O equilíbrio deixa a desejar em alguns momentos. Há inimigos excessivamente resistentes, batalhas que se arrastam mais do que deviam e picos de dificuldade algo inconsistentes. Por outro lado, existem também encontros surpreendentemente fáceis. É um contraste estranho num sistema tão bem pensado, mas que não chega a estragar a experiência global.

O Grim Garten regressa como espaço opcional de grind e experimentação. Continua a não ser o meu tipo de conteúdo favorito, mas está claramente mais bem integrado, mais rápido de concluir e, desta vez, com recompensas narrativas relevantes. Ignorá-lo significa perder contexto importante, o que o torna “opcional” apenas no nome.

Tecnicamente, a versão PS5 é sólida. Não estamos perante um salto geracional marcante, e o jogo mantém uma base visual claramente ancorada na geração anterior. Ainda assim, a fluidez é exemplar, os tempos de carregamento são praticamente inexistentes e as animações (tanto em combate como em cutscenes) são o verdadeiro destaque. A realização está mais cinematográfica do que nunca e consegue dar peso emocional a muitos momentos-chave.

A banda sonora, tradicionalmente um dos pilares da série, é competente mas não inesquecível. Existem temas fortes e eficazes, mas poucos se destacam como clássicos imediatos. Funciona bem no contexto, mas sente-se falta de um leitmotiv verdadeiramente marcante que fique na memória.

No final, The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon não é um jogo perfeito, nem o mais acessível da série. É exigente, lento no arranque e completamente dependente do conhecimento prévio do universo. Mas é também um dos pontos mais altos da saga. Um jogo que faz sentir, finalmente, o peso e a recompensa de ter acompanhado esta história durante tantos anos.

Para fãs de longa data, é uma experiência quase incomparável. Para quem chega agora, é um labirinto narrativo difícil de navegar. A Falcom não tenta agradar a todos, e talvez seja precisamente isso que torna Beyond the Horizon tão especial. É um jogo que assume a sua identidade, abraça o seu passado e aponta, com ambição, para um futuro que promete abalar Zemuria como nunca antes.

Um agradecimento à PlayNXT pela cedência de uma cópia digital para análise

CONCLUSÃO
Recompensador
8.5
the-legend-of-heroes-trails-beyond-the-horizon-analiseTrails Beyond the Horizon é um capítulo essencial para fãs da série, oferecendo finalmente um avanço significativo na narrativa e um forte sentimento de recompensa após anos de investimento. Apesar de um início lento e de alguns desequilíbrios no gameplay, os momentos altos, as revelações e a ambição do conjunto fazem deste um dos pontos mais fortes da saga.