De vez em quando certos filmes de anime chegam a Portugal e eu tento sempre apanhar sessões no cinema para os ver. No fim de Fevereiro estreou o filme Scarlet de Mamoru Hosoda, pensando melhor talvez deveria ter escrito esta análise logo para trazer mais pessoas ao cinema para ver filmes de anime que não sejam dos animes mais mainstream como foi o caso de Demon Slayer e Chainsaw Man no ano passado. No entanto, penso que isso funcionaria numa análise positiva, e os próprios cinemas Portugueses mantiveram o filme mesmo muito pouco tempo, talvez pela fraca adesão da sua estreia ou tralvez pela fraca bilheteira mundial.
Eu já conhecia o trabalho de Mamoru Hosoda, o criador de Wolf Children, the Boy and the Beast, director de the Girl Who Leapt Through Time e do candidato a Óscar Mirai of the Future. Sendo que gostei de quase todos estes acima mencionados trabalhos, todos excepto Wolf Children, quando vejo que este director vai realizar um novo filme sobre vingança e o pós-vida, fico expectante. Quando começou a vir as avaliações mediocres nos sites de análise pensei na mesma: “vou ver para ter uma opinião própria.”, mas às vezes a maioria nem sempre está errada.
Scarlet é a típica princesa medieval moderna, “not like other girls”, a quem todas as tentativas de educação e incentivo para ser uma senhora nobre falham pois ela quer ser o que nós no panorama moderno achamos que as crianças devem ser, brincalhona, suja de terra e a experimentar todos os ofícios possíveis; um começo de um personagem que deixou de ser uma desconstrução visto que é o ponto de partida de todas as princesas atuais, mas por si só um clichê não é mau, nada disso, apenas um ponto de partida vazio para um filme tão vazio quanto. Scarlet talvez fosse assim pelo mimo do seu pai babado, o rei bondoso que quer paz que sabemos que vai ser a morte trágica que vai começar a histórica de vingança, vamos lá, não é a nossa primeira vez aqui.
Depois do seu pai morrer numa conspiração orquestrada pela sua mãe e o seu tio, Scarlet jura vingança e prepara-se, descarta a sua infância a treinar para….falhar miseravelmente e ser envenenada pelo próprio tio. O filme passa-se no seu pós-vida, uma espécie de purgatório com regras não muito claras. Scarlet descobre que o seu tio e todas as pessoas responsáveis pela morte do seu pai estão neste purgatório e, juntamente com um paramédico dos tempos modernos que também lá está, segue em busca do seu tio para levar a cabo a sua vingança.

Apesar do potêncial absurdo que este conceito tem, nada de especial é feito com isto, o choque entre as diversas épocas e as diversas culturas no purgatório é mínimo: Scarlet apesar de ser uma princesa Dinamarquesa consegue-se comunicar com um paramédico Japonês dos tempos modernos sem muita dificuldade e mais à frente consegue-se imaginar como se fosse uma pessoa normal em Shibuya numa flash mob apenas por ouvir uma música; os bandidos são bandidos sem muito motivo ou nacionalidade sem ser pilhar e causar disturbios, mas porque querem roubar? Existe uma economia no purgatório? O filme não quer saber e eu também não. O que sabemos e vamos descobrindo é que o tio de Scarlet conseguiu ser rei autoritário deste purgatório e está a usar a sua força para impedir que as pessoas comuns não consigam seguir em frente, então a vingança da nossa protagonista torna-se uma demanda moral e meio que justificável embora o filme tente sempre mostrar que violência e guerra é errado, com um vilão tão vil e cruel é muito difícil não ter empatia com a Scarlet e discordar dela.
Para tentar o filme introduz-nos Hijiri, o acima referido paramédico da atualidade, para ter o comportamento de um médico neutro que vai curar todos sem exceção que precisem de ajuda, incluindo pessoas que acabaram de o tentar matar. Esta perspetiva e este choque são interessantes se existisse algum desenvolvimento nos personagens: sim os inimigos voltam para os ajudar mas foi porque entendem que o rei cruel era muito cruel e egoista e por comparação tinham sido bem tratados pelo médico, não por concordar ou sequer debater esse ponto de vista. Por outro lado o socorrista tem uma cena em que causa a morte de um vilão, mas porque percebe que gosta mais da Scarlet e ela estava em perigo de vida e não porque a sua filosofia de vida foi desafiada. Em suma, o filme prefere em vez de desafiar ideias geracionais num purgatório onde existem pessoas de todas as eras, ficar apenas no bons contra maus e isso é um desperdício do potêncial do conceito apresentado.

Logo de seguida é-nos revelado que o malvado tio está a fazer isto tudo porque não quer seguir em frente sem a sua amada, a mãe da Scarlet, que nunca apareceu naquele purgatório fora do tempo. Ora se existem nativos de várias épocas que dá para ver apenas pelas suas armaduras e apenas uma pessoa do séc XXI, que é o Hijiri, como é que a Rainha nunca apareceu no purgatório? A senhora por acaso tem vida eterna? Também é nos dito que um dos personagens ainda está vivo, mas sendo aquilo um purgatório sem tempo, não faria sentido existir pelo menos uma versão do tal personagem depois de ter morrido de certeza? O filme não responde a estas questões porque está só confuso no seu world building e provavelmente nunca pensou mais do que nas cenas de choque para fazer uma história. Tirando essa motivação o vilão não tem mais nada, não é um mal necessário por causa da bondade quase irrealista para um soberano do seu irmão, não é manipulação, e em todos os momentos que a história dá para se redimir ele não o faz, preferindo tornar-se ainda mais asqueroso. Isso não é necessariamente mau num vilão, mas normalmente tem de vir acompanhado de carisma, entretenimento ou pelo menos actos intimidantes, coisa que falta a este personagem.
O filme tenta-nos passar uma mensagem que a protagonista vai aprender que o amor é mais forte do que o ódio e o verdadeiro caminho para a paz é o perdão a si mesma pela morte do pai e largar os sentimentos de vingança para tentar ser feliz. Isto vem na forma de uma canção pop e a tal famigerada flash mob em Shibuya e a música pop que o diretor que algum produtor queria vender e canta na nossa cara toda a mensagem do filme. Seria algo bonito se não fosse tão longo e tão direto. Eu gosto de histórias em que pessoas instrumentalizadas para a guerra se desinstrumentalizam e encontram a paz através das ligações que têm a outras pessoas, mais disso na minha análise de Gundam Wing em breve, mas neste caso foi demasiado caricato e sem grande debate apenas o que disse em forma de canção e uma romance superficial entre os únicos jovens atraentes.

O estilo de arte fez-me alguma confusão ao início apenas pela paleta de cores ser mais do estilo aguarela e o CGI não ser das coisas mais bonitas de se olhar mas ao fim de algum tempo acabamos por nos habituar ao estilo diferente e temos alguns visuais bastante bons, movimentos fluídos, cenas de ação impactantes e algumas imagens e composições de tela divertidas, criativas e chocantes.
No aspeto do som, confesso que a música que eles estavam a tentar impingir-nos acabou por se tornar mais irritante do que algo que fique no ouvido, sendo que ainda semanas depois estava a falar deste filme com o meu grupo de amigos e faço apenas o som do início da música, que começa com “AIIIIII” para todos começarmo-nos a rir e a queixarmo-nos do quão deslocada e sem noção toda essa cena era. Restraram os memes na minha cabeça em que a protagonista ouvia outra música qualquer e tinha a mesma reação que mudasse a vida dela quase como um anuncio à cantora em questão.
Vi nas redes sociais pessoas a queixarem-se de que os verdadeiros fans de anime não vão ao cinema apoiar as obras menos conhecidas e quase a voltar o discurso de serem apenas seguidores de modas passageiras e não apreciar o meio artístico pelo que é, mas honestamente, neste caso, o flop foi merecido, não é uma boa experiência ir ao cinema ver isto e espero que não afete as próximas importações de filmes que não sejam de franquias poderosas. Acho que havia um conceito e um filme no meio que se perdeu numa execução trapalhona e mal pensada, não sei se falta de visão e detalhe, se demasiado envolvimento de produção, o filme está estranho, deslocado e mal cuiado.





























