Entre várias remasterizações e relançamentos, Patapon 1+2 REPLAY surge com uma abordagem diferente, servindo não apenas como uma revisitação nostálgica, mas principalmente como o renascimento de uma saga que continua a ser incrivelmente única.

A experiência padrão é entrarmos em Patapon com a expectativa pouco além de apertar botões ritmicamente, e o que acabamos por obter é uma mistura estranha, mas focada, de narrativa tribal, precisão nervosa e repetição hipnótica que nos envolve num tipo de transe muito pouco vista atualmente.

Em termos narrativos, não há cenas que nos tentam tocar o coração, nem longas explicações. Lideramos os Patapons, uma tribo de apenas um olho que procura Earthend, um destino mítico que nunca é bem definido, mas está sempre fora de alcance. No primeiro jogo, a nossa demanda sente-se espiritual, quase instintiva. Não marchamos com um motivo em concreto, mas por uma espécie de jornada ritualística. Já Patapon 2, dá o devido seguimento à espiritualidade, introduzindo tribos rivais, um falso deus, e conflitos mais evidentes, mas sem nunca perder a mística.

Tudo o que fazemos em Patapon, cada movimento, cada comando, acontece através do ritmo.

Não encarem isto como música num jogo; a música é o jogo. Seguimos padrões no comando como Pata Pata Pata Pon, e o nosso exército marcha, ataca, defende ou recua. Posso-vos já assegurar que no início, errar vai ser o prato do dia, e se o nosso timing estiver errado, o canto é interrompido e as tropas ficam desorientadas. No entanto, como acontece em vários jogos cuja certa mecânica é o ponto central do jogo, quando acertamos o ritmo e entramos em modo Fever, as batidas alinham-se perfeitamente e sentimos uma dose de adrenalina que nos mete a abanar a cabeça ao som dos cantos.

Em Patapon 2, os tipos de unidades são ainda mais diversificados, e o sistema Hero acrescenta outra camada de profundidade. Basicamente seguiram a fórmula certa para uma sequela: respeitar o trabalho do original e adicionarem complexidade suficiente para manter as coisas interessantes, sem complicar demasiado.

Dito isto, a estrutura de níveis é onde as coisas ficam um pouco mais repetitivas. Ambos os jogos são construídos em torno de um ciclo: entrar numa missão, lutar ou caçar, ganhar materiais, melhorar o exército, repetir. As missões variam claro, algumas são lutas contra chefes, outras são mini-jogos rítmicos e, ocasionalmente, há objetivos de escolta ou defesa, mas, na sua essência, seguimos normalmente o mesmo ritmo. Confesso que em certos momentos, quando precisava de ganhar um determinado item ou repetir uma caça, apenas para criar uma lança ou um capacete melhores, senti-me arrastada, mas, estranhamente, mesmo essa repetição surge meio como meditativa.

Quanto à vertente audiovisual, diria que a apresentação é notavelmente boa. Visualmente, o jogo é construído em torno de silhuetas arrojadas, linhas limpas e cores planas. Não tenta empurrar os limites gráficos, mas a simplicidade funciona também a seu favor. Algumas vertentes, como cenas pré-renderizadas ou certos elementos da interface do utilizador, não envelheceram tão bem e podem parecer um pouco desfocados ou distorcidos, mas são distrações menores. O verdadeiro destaque acaba por ser o design de som. Os tambores tribais, os cânticos, o ritmo de chamada e as respostas dos Patapons não são apenas memoráveis, são contagiantes. Dei por mim a abanar a cabeça e a bater o pé constantemente já depois de ter fechado o jogo.

Claro que os visuais e o áudio podem ser incríveis, mas se falharem na qualidade do port, assegura-se uma tempestade incomportável. No caso de Patapon 1+2 REPLAY, somos levados bem para lá de emulações malfeitas, encontrando apenas versões bastante bem otimizadas dos jogos. Coloquei as definições todas no máximo e não tive quaisquer problemas ao correr qualquer um dos dois títulos.

Agradecemos à Play NXT e à desenvolvedora pela cedência de uma cópia digital para PC (STEAM).

CONCLUSÃO
Rítmico
7.8
Matilde Silva
Gosto de caminhadas na ténue linha entre a análise e a opinião
patapon-12-replay-pc-anlisePatapon 1+2 REPLAY apresenta-se como uma preservação de dois jogos muito estranhos e brilhantes que ainda parecem novos porque sempre se apresentaram num espetro próprio. Há grind, há repetição, e há momentos em que o ritmo vacila, mas, a experiência central, o ritmo, o fluxo, e a estranha magia tribal mantêm-se intactos.