No, I’m Not a Human é um daqueles indies que mexem connosco, explorando o lado psicológico do terror de forma intensa e desconfortável. A premissa é simples, mas conquista de imediato: todas as noites alguém bate à tua porta e tu decides se deixas entrar ou não, correndo o risco de dar abrigo a criaturas disfarçadas de humanos. Já viste a série From? As semelhanças são muitas, tanto na promessa do que poderia ser, como na desilusão.

A narrativa sugere algo de cósmico, contado de forma vaga por um vizinho que associa o apocalipse ao aquecimento global: o Sol seria a causa de tudo, e, a partir daí, começaram a surgir os chamados Visitors, criaturas que imitam quase na perfeição os humanos, mas com pequenos detalhes que revelam a sua verdadeira natureza.

O que fazemos é simples: abrir portas à noite e conversar de manhã. O cenário é sempre o mesmo: uma casa vista numa perspectiva afunilada, e a atmosfera constrói-se através da suspeição constante de que podemos não acordar no dia seguinte, mesmo que isso realmente não aconteça. Quando as primeiras visitas começaram a surgir, percebi rapidamente que não havia indicações claras para distinguir um humano de uma criatura assassina. As caras são todas perturbadoras, a desconfiança está sempre no limite, e só nos resta ouvir os seus monólogos para, no fim, decidir se entram ou se são expulsos. Apesar da simplicidade, esta mecânica incentiva-nos a jogar sempre “só mais uma noite”, até chegar ao final. E convém mesmo chegar, já que o jogo só permite um slot de gravação, algo bastante estranho que não consigo muito bem entender nos dias actuais.

Depois das primeiras noites, começam a surgir notícias que anunciam o fim do mundo e, através de dicas das autoridades internacionais, passamos a ter pistas para identificar possíveis Visitors: alterações nos dentes, olhos, unhas e até nas axilas. Verificar estas pistas consome energia e, quando esta se esgota, resta-nos dormir para enfrentar o dia seguinte. O problema é a gestão: se deixamos entrar cinco pessoas num dia, mas só temos dois slots de energia, a probabilidade de alguém morrer nessa noite é elevada. Infelizmente há uma mecânica que falha de caras: É possível deixares entrar um visitor e ele matar alguém logo na primeira noite. Outro problema é que não podemos analisar directamente certas características dos Visitors em quem nos aparece à porta. Muitas vezes, resta confiar apenas no instinto, e o diálogo não ajuda, já que todas as falas em No, I’m Not a Human são estranhíssimas, no mínimo.

Sendo um jogo que se propõe a ser rejogado várias vezes para mostrar finais diferentes, o facto de termos de rever constantemente as mesmas histórias das personagens, os mesmos programas de televisão, os mesmos áudios de rádio, os mesmos números de telefone e até a mesma vista pelas três janelas da pequena casa, acaba por se tornar cansativo. Isto não é fator de repetição, já que os Visitors são escolhidos aleatoriamente, num sistema de RNG que aqui não resulta tão bem.

Apesar de tudo, muitos destes problemas acabam por ser disfarçados pelo incrível trabalho visual. Foi o estilo artístico que me prendeu: uma mistura de Junji Ito com o traço de Hajime Isayama. As personagens são visualmente fascinantes, misteriosas e intimidantes. A acompanhar, temos sempre uma música subtil que, mesmo em loop curto, funciona como um lo-fi atmosférico, mantendo-nos colados ao ecrã para descobrir um dos muitos desfechos possíveis.

No, I’m Not a Human falha em vários pontos cruciais do seu core, mas não deixa de ser uma história interessante numa proposta inovadora e, acima de tudo, cheia de criatividade.

Esta foi mais uma bit-nálise, análise tão curta que nem um bit ocupa. Em baixo podes contar com a ficha técnica:

Nome e Preço: No, I'm not a Human – 14.79€

Desenvolvedor: Hammer & Ravens

Editora: Shiro Unlimited

Metacritic: 77

HowLongToBeat: 2 Horas aprox.

Conquistas: 49

Plataformas: PC (Steam)

Agradecimentos: Obrigado à editora pela cedência de uma chave para bit-nálise
Igor Gonçalves
Curioso, explorador, e fã de videojogos desde que me lembro, e em especial pela saga Metal Gear. Não jogo plataformas, jogo jogos.