Entre as Emílias, as Cláudias e as demais tempestades que queiram vir a nomear, não há dúvida que o Inverno chegou em força. As chuvas torrenciais de entupir sarjetas e criar inundações, os carros cujas portas e vidros ficam completamente congelados, a humidade que nos entranha até aos ossos enregelados… Ah! Que vontade de ficar em casa, largar isto tudo, para ficar debaixo das mantas. O mundo podia acabar lá fora, e levar o Inverno com ele.
Não sei se são influências da região algarvia, mas nunca me dei bem com o Inverno. O frio, a humidade, anda-se num desconforto que não se pode. Claro está, que quando chove e estou entre portas até bato palmas, e se trovejar quando já estou em casa, então é uma festa em que até se substitui os ecrãs pela vista da janela, mas até então, é uma guerra.
Não sei se convosco o sentimento é igual, mas quer me parecer que no Japão também o Inverno não ganhou apoiantes, o que nos traz ao tema de hoje. Convido-vos a aquecer um chá, ou cafézinho, a porem-se confortáveis e a ter a mente aberta para algo que é capaz de vos roubar tempo, e espaço nas vossas salas de estar.
O Japão tem invernos frios, casas tradicionalmente pouco isoladas, ou pelo menos assim o era, de tal modo que levou a uma resposta cultural diferente, onde mais que aquecer o espaço, os japoneses procuram aquecer o corpo. Assim, e muito antes do já tradicional Kotatsu, existiu o Irori ( 居炉裏 ), que já deves ter visto em centenas de animes que remetem a tempos mais históricos. Era num típico centro da casa que podíamos encontrar uma lareira de carvão embutida no chão. Para além de aquecer, esta também tinha o propósito de ser de cozinha e de instigar ao convívio à volta do seu calor. Um foco de calor que unia e gerava momentos de partilha das vivências rurais.
Nisto, os fumos intensos em casa rapidamente deixaram de agradar e o ritual transformou-se em algo mais robusto. O chão em volta do Irori foi rebaixado, e uma mesa comprida foi colocada sobre o buraco onde se acendia a fogueira. Menos fumo, mais conforto, num espaço que mais se assemelha às nossas tradicionais salas de jantar, era a premissa do Horigotatsu (掘り炬燵) que mantinha o ritual tanto social como tempestivo.
Ávidos defensores da tradição, foi nos tempos modernos que os japoneses encontraram o desafio de manter o ritual social que já traziam. Mas estamos a falar do povo nipónico, os amantes dos dumb-phones, que se munem de tecnologia retro numa das sociedades mais avançadas do planeta, claro está que iam encontrar caminho e espaço para transformar o Horigotatsu. Com a tecnologia a evoluir, e o minimalismo a crescer como conceito de home design, surge finalmente o Kotatsu ( 炬燵 ou こたつ)!
Simples, confortável, compacto, o Kotatsu tornou-se mais “fácil” de montar, desmontar e multi-usos. A versão moderna mantém-se fiel à sua essência, mas adaptada aos tempos atuais. Uma mesa baixa, um aquecedor elétrico discreto por baixo e uma manta grossa que cai até ao chão, criando um pequeno microclima doméstico. Não há fogo, não há fumo, nem tecnologia ostensiva. Todo o calor nele é contido, silencioso e exige pouca manutenção, o que talvez seja exatamente o factor que o torna tão eficaz.
Porque o kotatsu não é apenas mobiliário nem apenas aquecimento, é um convite à permanência: à sua volta come-se, conversa-se, trabalha-se um pouco, joga-se outro tanto e, muitas vezes, acaba-se por adormecer sem dar conta. O tempo abranda naturalmente. Não há instruções nem regras, apenas as condições certas para o conforto. Durante o inverno, o Kotatsu altera a dinâmica da casa, reorganiza a sala e cria um centro físico que só existe enquanto o frio pede abrigo.
Esse centro transforma-se também num ritual doméstico. Colocado no meio da sala, o kotatsu junta pessoas sem esforço. A família aproxima-se porque faz sentido, porque o calor é partilhado e o corpo pede proximidade. A tecnologia entra, mas nunca manda. Um filme visto em conjunto, uma consola ligada, um portátil pousado na mesa. Tudo acontece ali, mas o foco mantém-se no conforto, na lentidão e na experiência comum, algo que ressoa naturalmente com noites longas, sessões de cinema e gaming mais calmo.
Talvez por isso o kotatsu continue a fazer sentido hoje. Numa altura em que se fala cada vez mais de eficiência energética e consumo consciente, aquecer pessoas em vez de espaços inteiros revela-se simples e eficaz. Não é nostalgia nem resistência à modernidade, é funcionalidade emocional. E mesmo que não seja um objeto a copiar tal como existe no Japão, a ideia por trás dele continua poderosa: criar um centro, aquecer o corpo e repensar a forma como habitamos o inverno.
Um desafio aí para casa
Talvez a melhor forma de perceber o valor desta ideia seja experimentá-la. Não como um projeto definitivo, mas como um ensaio. Desafia-te aí em casa a adoptares o Kotatsu perfeito para quando estiveres nas tuas leituras, jogatinas ou sessões de k-dramas/animes! Este nada tem de mais que uma manta/futon estendida sobre uma mesa de centro de sala, e sobre ela um segundo tampo. Simples e confortável! Nisto para quem quer reproduzir em sua casa um Kotatsu “tradicional”, o IKEA é o melhor aliado, dada a facilidade de arranjarmos tampos e peças extra de mobiliário com facilidade e adequados à harmonia de disposição das nossas salas (e mesas).

Claro está que esta é a versão mais básica e ideal para casas que até se aguentam bastante bem no inverno, sem grande consumo energético. Se quiseres dar um upgrade, a primeira coisa que podes fazer é garantir que o teu Kotatsu fica sobre um tapete quentinho para caminhares mesmo sem pantufas, e onde te podes sentar confortavelmente.
Já numa versão ultimate e bem mais ao estilo original nipónico, muito devido às precárias construções pouco resistentes ao frio, podes adaptar um um aquecedor de infra-vermelhos para colocares diretamente por baixo do tampo da mesa. Têm apenas muita atenção aos cabos e nunca deixes o Kotatsu com o aquecedor ligado sem supervisão!
O mais interessante no kotatsu, ou na ideia que ele representa, não é o objeto em si, mas aquilo que provoca. A vontade de ficar, de partilhar o espaço, de aceitar o frio sem lutar contra ele a toda a força. De transformar o desconforto numa desculpa para estar mais perto, mais atento, mais presente.
Seja numa adaptação caseira ou apenas como inspiração, fica o convite à curiosidade. A experimentar, a ajustar, a tornar o inverno um pouco mais habitável. Porque às vezes não é preciso aquecer tudo. Basta aquecer o suficiente para que as pessoas queiram ficar.































