Confesso que não me é fácil falar de Possessor(s), o mais recente jogo da Heart Machine, criadores de Hyper Light Drifter, não por ser um jogo especialmente difícil de falar sobre, mas porque nele pus algumas expectativas que, honestamente, não foram correspondidas (e porque, pessoalmente, não aprecio passar o meu tempo a falar mal de arte construída durante anos a partir do suor de talentosos artistas).
Não é o início de análise com melhor augúrio de sempre, admito, mas comecemos com o que, sem qualquer sombra de dúvida, funciona neste jogo:

A narrativa, que segue Luca, uma rapariga que é possuída pelo demónio Rhem após a metrópole onde vive se tornar um cenário apocalíptico graças a uma invasão demónica, é bastante imersiva, com uma construção de personagem lenta, mas bastante intrigante a funcionar a seu favor, complementada com flashbacks tanto para o passado de Luca como de Rhem. Para além disso, é muito fascinante explorar a ruína daquela cidade, uma distopia quase dupla, arruinada por demónios, mas que a narrativa sugere ter sido destruída previamente, pela mega-corporação que a detinha. Nesse, sentido, o jogo na sua génese, parece-me, uma crítica anti-capitalista bastante forte e bem desenvolvida, que brilha em momentos como quando o demónio explica à protagonista da narrativa que um parque público controlado por uma corporação e repleto de publicidade e propaganda não é muito melhor que um inferno.
Como complemento à forte narrativa, o jogo tem também brilhante design e direção de arte. Absolutamente fabulosos e lindos, elevam a atmosfera e a narrativa do jogo. Todos os backgrounds, designs de personagens, elementos estéticos funcionam e foram, para ser sincero, o que me fez dar mais e mais oportunidades ao jogo, uma vez que estes elementos mostram algo em bruto que ficou por explorar.

De resto, não há muito que salve este jogo, quebras constantes de fps na PS5, gameplay e variedade de inimigos repetitivos, problemas técnicos, game-breaking bugs capazes de destruir progressão, um mapa confuso, horas e horas de sensação de que estamos perdidos não integrados no design do jogo, tudo isto me deu uma sensação de aborrecimento e de falta de orientação e objetivo.
Ao mesmo tempo, é impossível não comparar este jogo a clássicos modernos como Hollow Knight, e, infelizmente para Possessor(s), esta comparação não o deixa ser visto em muito boa luz. A exploração e combate do segundo empalidece e definha à luz do primeiro.
É e vai continuar a ser difícil para mim falar deste jogo, porque nele vejo algo excelente a ser enterrado sob a ambição de quem o desenvolveu. Este é o tipo de jogo que brilharia enquanto um platformer linear e focado em narrativa. Quando deturpado pelas obrigações das filosofias de design de um metroidvania, talvez para ter mais “conteúdo”, dilui tudo aquilo que funciona em si.
Possessor(s) é um diamante em bruto, com designs soberbos, personagens carismáticos e uma narrativa forte, que acaba por ser desperdiçado em mais um metroidvania medíocre.
































