Felizmente, nasci numa geração que me permitiu acompanhar o famoso Prince of Persia ao longo das suas várias encarnações, desde as duríssimas e impiedosas aventuras em 2D, a incrível trilogia de Sands of Time, ou as experiências como o lançamento do título homónimo ao herói e o mais recente metroidvania The Lost Crown.

Com isto, a Ubisoft decidiu apostar de forma mais arrojada, tornando The Rogue Prince of Persia em algo completamente diferente: um roguelite da Evil Empire, mais conhecida pelas incríveis atualizações de Dead Cells. Deixando de parte níveis lineares e criados manualmente, surgem biomas gerados proceduralmente onde morremos, ressuscitamos e avançamos pelas diversas partes da história através da repetição.

A premissa segue um erro do príncipe que desencadeia uma invasão hunna repleta de magia xamânica, onde um artefacto que permite a ressurreição torna o fracasso como parte integrante e vital da história. Cada morte devolve-nos ao Oásis, onde através de conversas, surgem atualizações e pequenos mistérios que se acumulam num novelo narrativo bastante interessante. Com a atualização 1.0, vimos o título completar-se com os atos II, III e o ato final, onde o novelo se encerra de forma satisfatória, embora não atinja os maiores altos, raramente desce do padrão criado desde o início.

Os biomas, bastante variados, servem quase como pistas de obstáculos. Encontramos plataformas, armadilhas e cordas para destacar as possibilidades de travessia, acompanhando este prato principal com o combate. À semelhança dos congéneres que trazem mundos gerados aleatoriamente, é-nos garantida variedade, mas alguns layouts surgem apenas como preenchimento. A construção do mundo apresenta-se bastante leve, quase como um chá de Marrakesh, onde encontramos um sabor exótico mas equilibrados, o que é bastante importante, dado que o ritmo é alucinante, logo não podemos ter fundos que obstruam o nosso objetivo de deslizar pelas lindíssimas telas desenhadas.

Na movimentação é que o príncipe e o jogo se destacam. Corridas pelas paredes, seja na lateral ou vertical, sejam postes, cordas, ou vigas, tudo nos serve de vetor de movimentação. O parkour é tão bom que até mesmo as corridas infrutíferas acabam por ser recompensadoras. Encontramos várias armas como espadas, lanças, chakrams, etc. Estas são super intuitivas, podendo nós optar por um estilo de luta mais leve e rápido, mais pesado e lento. Adicionalmente levamos connosco a capacidade de pontapear que, bem usado, correlaciona o combate com a travessia, permitindo-nos atirar os inimigos para espigões ou armadilhas.

A principal desilusão do combate é que consistência da construção é demasiado aleatória, no sentido em que o RNG do medalhão e da arma traz viagens irregulares, onde tanto as sinergias funcionam brilhantemente, como ficam bastante aquém do melhor que já estivemos. Não obstante, podemos desbloquear mais de 100 armas e medalhões, o que incentiva a repetitividade e a variação de combos. Mesmo a meio de runs acabei por mudar algumas vezes de estratégia quando novas características potenciaram o meu estilo de jogo preferido.

A variedade de inimigos complementa os movimentos. Os soldados com escudos obrigam-nos a saltar por cima deles, os lanceiros punem desvios mal enquadrados e até os arqueiros nos obrigam a recorrer à verticalidade, caso contrário ficamos muito rapidamente pelo caminho. Os bosses aparecem bem doseados, faltando talvez uns mini-bosses, complementando uma estrutura de inimigos que é 8 e 80 no que toca à importância para a história.

O estilo artístico é moderamente ousado, traçado com linhas grossas e paletas persas saturadas acompanhadas com efeitos especiais que tanto aparecem como desaparecem rapidamente, complicando e facilitando a análise do caos que nos envolve. A banda sonora de ASADI trouxe um tom que não estava à espera, mas rapidamente senti como essencial à travessia.

Instrumentos persas combinados com batidas trap trazem consigo um ritmo incrível, como se a música estivesse em diálogo com os nossos movimentos. O desempenho segue a linha do audiovisual, apresentando-se como incrivelmente suave. Claro que não existem grandes visuais altamente detalhados, mas é importante garantir que a travessia não se deixa impedir por paragens ou tempos de carregamento demorados.

The Rogue Prince of Persia está disponível para PC na Steam, Playstation 5 e Xbox Series X|S.

CONCLUSÃO
Suave mas letal
8.2
Matilde Silva
Gosto de caminhadas na ténue linha entre a análise e a opinião
the-rogue-prince-of-persia-pc-anliseThe Rogue Prince of Persia apresenta-se como a iteração mais corajosa da saga. Muito provavelmente não encontramos melhor movimento num jogo de ação 2D, com a banda sonora a levar-nos a alta velocidade pelos cenários persas. Ao mesmo tempo que nos entrega estes momentos incríveis, deixa-nos um dissabor pela falta de convicção no produto, deixando que alguns elementos fiquem aquém no que toca à quantidade, como os bosses.