Conforme dito na minha análise do primeiro volume de Dandadan editado pela Devir, no passado dia 18 de Fevereiro recebi um bundle com três volumes de manga: um deles o já analisado Dandadan Volume 1, Blue Exorcist Volume 30 que estou no processo de leitura enquanto escrevo esta análise e por fim, Kenshin, o Samurai Errante Volume 25, conhecido em japonês como Rurouni Kenshin e pelos mais anciões assim como eu por Samurai X, que dava nas tardes do Batatoon no fim dos anos 90 e início dos anos 2000.
A editora Devir está a publicar o manga de Nobuhiro Watsuki com o nome Kenshin, o Samurai Errante que, embora uma tradução melhor que Samurai X, continua a não ser a melhor maneira de passar a mensagem. Sim, um ruroubi é um andarilho, um espadachim errante; mas, na verdade, Kenshin Himura nunca foi um samurai: para se ser um Samurai tem de se servir um senhor feudal e Kenshin, mesmo no passado pré-revolução Meiji, não servia nenhum senhor feudal; tendo saído dos treinos de Hiko Seijurou para usar o estilo Hiten Mitsurugi na revolução Meiji que acabou com os samurais e é todo o catalista para a história. Entendo que algo com samurai no nome ajude a mostrar ao público sobre o que vai ser a história, mas enfim.
Pessoalmente, tenho uma ligação muito grande a esta obra de Nobuhiro Watsuki; não só o primeiro anime dos anos 90, foi um dos primeiros animes que peguei para ver duma ponta a outra já sendo adolescente e sabendo o que era anime, como também vi várias adaptações da história para além dele: os OVAs do passado onde se mostra os tempos de Kenshin na revolução, a relação dele com Tomoe e o como conseguiu a icónica cicatriz na bochecha; a re-adaptação do arco de Quioto de 2011, no qual se cortou as partes que tornavam os personagens especiais e tudo ficou uma casca da verdadeira essência; o remake do anime de 2023, cuja segunda temporada foi um dos meus 3 animes favoritos do ano passado; os filmes japoneses de live-action que também maratonei o ano passado e fiquei chocado com a quantidade de mudanças sem sentido houve; e, estava a deixar este para o fim os famigerados OVAs que contam a correr o último arco do manga e dão um final alternativo à história; no entanto, nunca li o manga de uma ponta a outra, tenho uns 4 volumes mas sempre tive vontade de ler, principalmente o arco de Jinchuu – o castigo humano, que embora seja “adaptado” no live último live action e nos OVAs de sequela do anime original, nunca teve uma adaptação fiel que contasse a história.
Para os menos atentos, Kenshin, o Samurai Errante é um romance histórico passado 10 anos após a revolução Meiji, no qual Kenshin Himura, outrora o infame “Battousai, o dilacerador” que possuia um estilo de combate dito ser mais poderoso que vários batalhões e capaz de mudar o curso da guerra sozinho – o estilo Hiten Mitsurugi, primeiro assassino nas sombras depois soldado e cara de revolução, arrependido de todas as mortes e carnificina geradas e levadas a cabo por si, sentindo-se responsável visto que a sua ajuda ditou o curso da história, rejeita toda e qualquer recompensa que poderia ter tido depois da revolução ser instaurada, recebe uma “Sakabatou” espada com a lâmina ao contrário (a parte de fora não corta, sendo que a parte cortante está apontada para si mesmo) e segue como um espadachim errante, viajando sem meios de sustento pelo Japão dependendo da bondade de quem o acolha, tudo com o intuito de ver se a sua revolução de facto salvou vidas e proteger as vítimas diretas ou indiretas dessa revolução.
Em Tokyo, conhece Kaoru Kamiya, uma instrutora de um dojo de espadas de madeira, porque o uso de espadas de metal foi proibido, cujo lema é ensinar a espada que salva vidas; Yahiko Miyoujin, uma criança órfã, filho de samurais que caíram em desgraça com o fim da era dos samurais, que representa o futuro promissor mas também tem a ponte com os ideias nobres e honrosos dos samurais; e Sanosuke Sagara, um homem que estava sem rumo porque desde criança que foi uma das vítimas da revolução. A história segue o grupo de protagonistas mas, maioritariamente, Kenshin enquanto este lida com as consequências duma revolução com boas intenções mas injusta e os podres escondidos pelo governo, enquanto tenta encontrar uma razão para viver no meio do arrependimento.

Como dei a entender acima, nunca tinha lido o arco do castigo humano embora tenha ideia do que se trata, devido a adaptações resumidas como o live action. Vou dar um contexto breve e, posteriormente, analisar o Volume 25. Se quiserem, de facto, ler até aqui, que eu aconselho muito e depois voltar, ficamos combinados.
Para quem fica, após derrotar a ameaça que era Shishio Makoto, um novo grupo liderado por Enishi Yukishirou com ligações ao crime organizado chinês aparece em Tokyo, cometendo assassinatos, deixando uma marca nos corpos que diz “Jinchuu”, que é traduzido à letra para “castigo humano”, como contraste aos assassinatos pelos assassinos a favor da revolução que deixavam uma marca escrito “Tenchuu” que traduzido à letra seria “castigo divino”. É revelado que Enishi é irmão de Tomoe, falecida ex-mulher de Kenshin, cuja morte Enishi atribui culpa a Kenshin e este vem até Tokyo com o intuito de castigar Kenshin e tornar a vida dele num inferno na Terra.
Detalhe interessante: Shishio queria tornar o Japão no Ashura que é um dos seis planos de existência Budistas no qual almas que não têm mais nada lutam para sempre numa espécie de inferno de carnificina, ganhando o mais forte até ao próximo combate sem sentido, mas também Shishio tinha a simbologia das chamas, associadas ao inferno; Enishi quer tornar a vida de Kenshin um inferno na Terra, ambos vilões que o protagonista lida estão não só ligados ao seu passado (Shishio sendo a pessoa que fez os assassinatos no lugar de Kenshin quando este passou a ser soldado e Enishi o irmão mais novo da sua ex-mulher), como espelham o castigo que Kenshin deseja inflingir em si próprio e que tem de aprender a se perdoar, além de personagens são uma espécie de canhão cármico direcionado ao protagonista.
Resumindo muito a questão da Tomoe: Tomoe aproxima-se de Kenshin como agente dupla pois ele assasinou o seu marido, que lhe deu metado do emblemático “X” que não sara na sua bochecha esquerda, no processo eles acabam por se apaixonar um pelo outro e Tomoe não consegue atraicionar Kenshin quando os defensores do regime Tokugawa vêm para o assassinar, dando a vida para o proteger e fazendo assim o último corte do “X” (história mencionada de leve no volume e nos OVA do passado dos anos 2000 e o terceiro filme de live action é sobre isso). Enishi não sabe que a sua irmã se apaixonou por Kenshin e Kenshin culpa-se também pela morte dela.

Antes deste volume, Enishi raptou Kaoru mas deixou Kenshin acreditar que esta está morta, forjando a morte dela. O núcleo de personagens principal tirando Kenshin já inferiu que Kaoru está viva mas Kenshin está sozinho deprimido, sem determinação para lutar, sentado sem se mexer num lugar onde vai quem já não quer mais nada da vida e vive sem abrigo; provavelmente o ponto mais baixo do protagonista, o que faz sentido dado que este com toda a sua força e determinação e mesmo o amor próprio descoberto antes da batalha final com Shishio com a técnica final do estilo Hiten Mitsurugi não conseguiu proteger quem mais ama.
É nesta situação e com Saito, Sanosuke e Aoshi fora de Tokyo que um dos membros do grupo de Enishi sai da prisão e decide atacar a cidade para chamar a atenção de Battousai, quem ele acha que é responsável pela revolução e por conseguinte por guerreiros como ele perderem a sua honra e já não terem espaço na sociedade. Imaginem um gigante de quase 3 metros com um lança granadas a substituir o braço cortado qual terror de um jogo cyberpunk a gritar “Battousai”, enquanto destrói as ruas de Tokyo, mas Kenshin nem está perto para atender ao chamado quer fisica ou mentalmente. Neste contexto, quem mais tem de mostrar o seu valor se não o melhor aprendiz do estilo Kamiya Kasshin – as espadas que salvam vidas e pessoa que mais admira Kenshin – Yahiko Miyoujin, que ainda está ferido de um combate prévio contra membros do grupo de Enishi.
Yahiko nunca foi o foco de cenas de ação, normalmente é escolhido para ele proteger a casa com a Kaoru de vilões menos ameaçadores do que aqueles que sobram para Kenshin, Sanosuke, Aoshi ou Saito; mas ainda assim tem algumas lutas contra vilões menores. Esta talvez seja o culminar do seu arco de personagem agora que estamos a 3 volumes do final da história principal, existe uma sequela recente do arco de Hokkaido que não faço ideia do que se trata.
Yahiko vê a ameaça do gigante enquanto está a tentar tranquilizar Tsubame, uma empregada do restaurante Akabeko e o seu par romântico na história. Ele está quase a contar-lhe o segredo de que descobriram que Kaoru está bem, quando, antes disso, um polícia avisa-os da destruição iminente na cidade. Sem mais demoras, Yahiko mobiliza o polícia novato e outros polícias do mesmo batalahão para fazerem frente e lidarem com o gigante massivo.
Aqui entra a brilhante escrita de Watsuki, que faz em cada arco personagens mundanos não importantes terem feitos heróicos para o panorama geral. Shinichi e os outros polícias vão ser relevantes na luta contra Enishi? Provavelmente não, mas a vitória está nas atitudes de cada um e cada pessoa tem os seus momentos definitivos, seja ou não um personagem principal numa história. A complexidade narrativa é o que define a obra de Nobuhiro Watsuki e é mesmo bom ver que o seu ápice não foi em Quioto, sendo que o arco final é muito importante para a reta final dos arcos de personagen, seja de Yahiko como mais tarde neste volume do próprio Kenshin Himura.

É interessante de notar que a honra e os ideais da “época passada” de uma criança que não viveu nessa época são o que destacam Yahiko na história, ele não luta sozinho nem domina o gigante; ele inspira Shinichi e os outros polícias novatos a ser mais do que são e a colocar uma brava frente contra o agressor que é bem mais forte que eles. Infelizmente, este esforço não é suficiente, mas os ideias e valores de Yahiko são o que o autor tenta passar: que nem tudo do anterior regime será descartado e que sim espadas podem salvar vidas. Além disso o esforço de Yahiko apaixona e motiva Tsubame a procurar Kenshin que por sua vez tem um encontro inusitado com uma figura do seu passado e descobre a verdadeira razão para empunhar a espada, que não era a que aprendeu com o seu antigo mestre antes da batalha final do arco de Quioto.
Mas como esse é o clímax do volume e talvez um dos momentos mais altos da obra, no qual Watsuki-sensei usa técnicas de flashback para nos mostrar tudo o que motivou o personagem até então, algo raríssimo em manga e com tantas páginas por sinal, deixo para vocês lerem e se deixarem arrebatar pelo ápice das motivações de Kenshin Himura e pelo seu heróico regresso. Se era engraçado deixar o Yahiko vencer o inimigo sem ajuda ou sem ter de vir o Kenshin salvar o dia? Talvez, mas a história não é apenas sobre vitórias físicas e Yahiko é instrumental na vitória devido à sua jornada emocional e para mim isso é muito mais importante.
O traço de Nobuhiro Watsuki é limpo, estético e apelativo, quer nos cenários de Tóquio destruída, quer nos olhos dos personagens, principalmente Kenshin nos quais conseguimos sentir as suas emoções através do papel sem que nenhum balão de fala seja necessário. Saltando de Dandadan para este volume é de notar a quadrinização dinâmica de que me queixei na outra análise, mostrando a mestria de um autor já na altura experiente, pois estava no seu vigésimo quinto volume e que foi consagrado pela Shonen Jump. Quanto às outras polémicas do autor, vou tentar não me alongar sobre isso: acho condenável tudo o que ele fez mas estou a tentar separar a arte do autor e é inegável a sua capacidade de boa escrita e desenho, tanto que a Shounen Jump o trouxe de volta para continuar o arco de Hokkaido.

Espero que a Devir me mande mais volumes desta obra incrível pois mesmo estando perto do fim está a ser um gosto enorme apreciar os últimos volumes desta obra prima e que prove que há espaço na Shonen Jump para coisas mais maduras e mais sérias.































