Konami é um nome facilmente reconhecido pelo mundo todo. Decerto que toda a gente (ou a maioria das pessoas) já deve ter jogado clássicos como o Contra ou o Gradius nas arcadas ou nas consolas, mas como se costuma dizer, para se fazer um bom jogo é preciso ter cabeça, tronco e membros. Onde quero chegar com esta afirmação, e baseado em anos e anos que levo a jogar jogos (bons, maus e assim-assim), é que, a meu ver, um bom jogo tem que ter os três focos principais de qualquer jogo: a história, a jogabilidade e o som. Onde quero focar neste artigo é, exatamente, num assunto que alguma gente não fala: o departamento da música.

A Konami teve muitos anos de ouro, especialmente, aproximadamente, no meio dos anos 90 (assumo aqui, a partir de 1995) e no início dos 2000. Durante o período de 1995 a inícios de 2000, as companhias japonesas como a Namco (atualmente Bandai Namco Games no que toca a jogos) ou a SquareSoft (atualmente Square-Enix) lançaram êxitos atrás de êxitos, e no caso da Konami, lançaram clássicos como o International Superstar Soccer (que mais tarde se transformou em Pro Evolution Soccer/Winning Eleven no Japão) ou o Metal Gear Solid mas, na realidade, não foi só nos jogos que a Konami teve sucessos, mas também do departamento da música, principalmente na era de 2000.

Após alguma pesquisa, descobri que a Konami, afinal, é muito mais que uma companhia que cria jogos. A Konami é uma entidade, um grupo, e esse grupo vai de clubes de Fitness (Konami Sports Club) a parque de diversões (Konami Amusement Park). Já tinha a ideia que a Konami não era só jogos, mas tal foi o espanto descobrir que, afinal, não se concentrava só na área de jogos, mas sim em muitos mais departamentos, como se fosse uma entidade omnipresente e que está em todas. Ao longos dos anos, foram encerrando os seus departamentos até que, em 2015, chegou ao seu controverso anúncio que não iam lançar mais jogos de alta produção (os jogos AAA) e dedicar única e exclusivamente às máquinas de Pachinko (uma espécie de slot machines muito popular no Japão).

Embora estivessem fora da produção de jogos AAA, ainda continuaram as lançar alguns Remasters ou Remakes (ou um novo jogo, no caso de PES/eFootball) e com as suas operações no Trading Card Game em forma de Yu-Gi-Oh! e chegaram a abrir em 2023 um estúdio de animação, o Konami Animation. Mas, para não alongar muito, sugiro darem uma vista de olhos na Wikipédia para perceberem um pouco melhor sobre as subsidiárias.

Konami Kukeiha Club: Os primeiros toques para o mundo da produção musical

Kukeiha Club pro-fusion ~TwinBee Yahho!~ – 1995

Uma das coisas que mais aprecio em qualquer jogo ou outra mídia qualquer é a banda sonora. Durante os tempos que andava a jogar alguns exclusivos japoneses como o Beatmania IIDX (que vai ser um dos jogos abordados na parte 2 deste artigo) ou mesmo o Dance Dance Revolution (Dancing Stage na Europa) tenho notado vários fatores que parecem coincidência mas que, na verdade, não são: grande parte das playlists desses jogos (e aqui assumo uns bons 90%) são de músicas compostas por nomes completamente desconhecidos ao público. Quando decidi escolher este tema e começar a investigar, além da experiência que já tenho em alguns desses jogos e de alguns artistas, cheguei à conclusão que estes nomes são todos pseudónimos dos artistas in-house da Konami e já tinha começado nos anos 80 quando surgiu o Konami Kukeiha Club.

A Konami Kukeiha Club (literalmente traduzido por Clube da Onda Quadrada da Konami) é um grupo in-house da Konami criada em 1986, responsável pelo departamento musical e sonoro dos jogos. O grupo foi dissolvido em 2003, dando mais espaço e organização dentro da própria companhia em termos estruturais.

Este grupo pode ser facilmente confundido pelo Kukeiha Club que é a banda in-house da Konami, fundada por Motoaki Furukawa, e que chegou a lançar dois álbuns (Kukeiha Club em 1990 e Hope em 1993) e tocava ao vivo músicas dos jogos da Konami, espelhando os seus contrapartes Alph Lyla (Capcom) e S.S.T. Band (Sega).

O grupo tem um extenso palmares de bandas sonoras de jogos da Konami, que vão desde Gradius a Silent Hill. Além dos notáveis contributos feitos para os grandes sucessos da Konami, tanto a Konami Kukeiha Club como a Kukeiha Club tiveram um rol de nomes ilustres e notáveis no universo dos jogos daquela época.

Eis uma breve lista dos nomes mais notáveis da Konami Kukeiha Club e Kukeiha Club:

Konami Kukeiha Club

  • Akira Yamaoka: Um nome que dispensa apresentações. Lançou o álbum iFUTURELIST em 2006 através da Konami e compôs a banda sonora toda da famosa série Silent Hill, filmes e o Silent Hill 2 Remake incluídos, e contribuiu para a série animada Cyberpunk: Edgerunners. Saiu da Konami em 2009 para se juntar à Grasshopper Manufacture de Suda 51 em 2010 e desde então tem sido diretor sonoro da companhia.

Contributos mais notáveis: Toda a série Silent Hill, Lolipop Chainsaw, Shadows of the Damned, No More Heroes.

  • Michiru Yamane: Pianista e compositora. Juntou-se à Konami em 1988 logo após a graduação da Universidade de Artes da Prefeitura de Aichi e é bastante reconhecida pelas suas influências do estilo Barroco e Música Clássica. Contribuiu com mais de 40 músicas e 20 anos dentro da empresa até se tornar Freelancer em 2008, fazendo alguns concertos ao vivo e contributos em variados jogos e outros mídias.

Contributos mais notáveis: Todos os jogos Castlevania desde o Castlevania: Bloodlines até Order of Ecclesia, Skullgirls, Bloodstained: Ritual of the Night, Suikoden III e IV.

  • Naoki Maeda: Um nome bastante conhecido para os fãs dos jogos de música. Juntou-se à Konami em 1995 através da Konami AM (Amusement Machine) e tornou-se num dos maiores nomes in-house da companhia quando compôs músicas para a famosa série DanceDanceRevolution. Formou o grupo de J-pop BeForU e o duo eletrónico TЁЯRA com Junko Karashima. Acabou por sair na Konami em 2013 para se juntar à Capcom e produziu o jogo para Smartphones CROSSxBEATS e a sua versão Arcade crossbeats.rev. Em 2018, fundou o estúdio Indie UNLIMITED STUDiO e em 2023 a companhia de produção de som AXTORM.

Contributos mais notáveis: Série DanceDanceRevolution, série Beatmania IIDX, série GuitarFreaks & DrumMania.

  • Kenichiro Fukui: Tal como Akira Yamaoka, não são precisas apresentações. Entrou para a Konami em 1991 e contribuiu para as bandas sonoras dos jogos para a arcada G.I.JOE (que podem ler a revisão que foi feita ao mais recente jogo The Wrath of Cobra aqui), Violent Storm e Lethal Enforcers. Em 1995, mudou-se para Osaka para se juntar à Solid, uma subsdiária da Squaresoft, e posteriormente foi transferido para Tóquio para se juntar à empresa-mãe. Foi um dos teclistas dos Kukeiha Club e, eventualmente, tocou no concerto da banda no famoso Budokan em Tóquio. Já na Squaresoft, além de compor músicas para vários jogos, fundou juntamente com Tsuyoshi Sekito os The Black Mages, após conseguirem convencer o lendário Nobuo Uematsu a juntar-se a eles. A banda dedicava-se a tocar músicas da série Final Fantasy e teve algum sucesso, além de terem lançado três álbuns antes de acabarem em 2010. Atualmente, ainda está envolvido na composição de música para jogos na Square-Enix e, desde 2009, dá aulas de composição e desempenho musical no HAL College of Tokyo.

Contributos mais notáveis: Final Fantasy XII, Kingdom Hearts III, Final Fantasy 7 Remake, All-Star Pro Wrestling 1 e 2

Kukeiha Club

Como já foi mencionado mais acima, o Kukeiha Club (estilizado como KuKeiHa CLUB) era a “versão banda” dessa equipa. O nome Kukeiha Club é uma referência à logo da Konami da altura (uma onda vermelha e uma onda laranja com fundo branco) e foi criada por Motoaki Furukawa em 1990, após o seu envolvimento do Gradius III e acabou em 2003. A banda envolvia vários membros do departamento musical da Konami e chegaram a lançar dois álbuns “originais” (Kukeiha Club em 1990 e Hope em 1993), além de vários outros álbuns, entre eles concertos ao vivo onde a banda era só creditada como “Kukeiha Club“.

Hope – lançado a 26 de Novembro de 1993

Membros iniciais dos Kukeiha Club

  • Motoaki Furukawa: Guitarra e Arranjos
  • Jun Funahashi: Teclas
  • Yukie Morimoto

Membros principais dos Kukeiha Club

  • Mami Asano: Teclas
  • Motoaki Furukawa: Todas as guitarras e Arranjos
  • Tappy (Tapi Iwase): Baterias e Percussão

Além dos membros-chave os Kukeiha Club contaram com vários membros convidados e alguns deles de renome:

  • Akira Jinbo: Mais conhecido como o baterista da famosa banda de Jazz Casiopea. Participou como baterista no álbum “Kukeiha Club
  • Kenichi Mitsuda: Participou na banda como teclista
  • Kenichiro Fukuri: Já foi mencionada mais acima a sua extensa carreira. Participou na produção dos dois álbuns no sintetizador
  • Koichi Namiki: Participou em alguns álbuns de músicas de jogos nas guitarras
  • Toyoyuki Tanaka: Tal como Namiki, participou em alguns álbuns de músicas de jogos nos baixos
  • Masato Honda: Saxofonista membro da banda de Jazz Fusion T-Square além de ter pertencido à banda The Seatbelts da Yoko Ono e ter envolvido na banda sonora do anime Cowboy Bebop

Em suma, a Konami começou a dar cartas do que toca a grupos e produção musical nos anos 90, mas nos inícios de 2000 a Konami expandiu o seu reportório de jogos musicais e, com esse sucesso, fez lançamentos de vários álbuns de artistas in-house. Também foi neste período que nasceram vários projetos curiosos que vão ser abordados na próxima parte.

Fim da Parte 1

Hugo Campos
Tendo o Mortal Kombat II como o 1º jogo que jogou desde os 5 anos, teve todos os PCs até ao Pentium 3 e mudou para as consolas quando consegiu ter dinheiro. Grande viciado de jogos de corridas, luta, RPGs e musicais, tem uma grande de coleção de jogos de ps2 até ao 5. É fundador do canal da Twitch Squil TV.